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DISCO DA DÉCADA · 2010AMARELOEMICIDA2019
Anos 2010

AmarElo

Emicida · 2019 · Laboratório Fantasma

Faixas de destaque:

  • AmarElo
  • Principia
  • Eminência Parda
  • Ismália
  • Libre
Votar nos anos 2010

Contexto e gravação

AmarElo é o terceiro álbum de estúdio de Emicida. Saiu em 30 de outubro de 2019, pelo selo Laboratório Fantasma, do próprio rapper, com distribuição da Sony Music. O disco foi gravado entre 2018 e 2019 e tem 11 faixas em 48 minutos e 48 segundos. A Wikipédia credita a produção a Laboratório Fantasma, Nave e ao próprio Leandro Roque, nome de batismo de Emicida. Nave aparece como produtor na maior parte das faixas, Tofu Valsechi cuidou da gravação, Mauricio Cersósimo mixou e Maurício Gargel masterizou. As fontes consultadas, incluindo as páginas da Wikipédia, não informam em quais estúdios o disco foi gravado.

O álbum chegou depois de uma série de singles: “Eminência Parda”, em maio de 2019, “AmarElo”, em junho, “Libre”, em setembro, e “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, em novembro. A Wikipédia dá 9 de maio de 2019 como data de “Eminência Parda” e, segundo a página, os outros singles saíram em 25 de junho, 19 de setembro e 13 de novembro. O Omelete, por sua vez, tem uma matéria sobre o clipe da música atualizada em 10 de maio de 2019, sem indicar uma data de estreia separada.

O que chama a atenção é a lista de convidados. Fabiana Cozza, o pastor Henrique Vieira e as Pastoras do Rosário aparecem em “Principia”. MC Tha está em “A Ordem Natural das Coisas”. Marcos Valle toca Rhodes e canta em “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, ao lado de Thiago Ventura. Zeca Pagodinho e a Tokyo Ska Paradise Orchestra participam de “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”. Drik Barbosa está em “9nha”, Larissa Luz e Fernanda Montenegro em “Ismália”, Dona Onete, Jé Santiago e Papillon em “Eminência Parda”, Majur e Pabllo Vittar em “AmarElo” e a dupla Ibeyi em “Libre”. Thiago Jamelão toca guitarra em “Paisagem” e em “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida”, e Carlinhos 7 Cordas, em “A Ordem Natural das Coisas”.

Para a Rolling Stone Brasil, o disco é fruto de muita pesquisa e de uma reelaboração da voz artística de Emicida, tanto na letra quanto na estética musical. A mesma matéria o descreve como um disco político em forma de álbum de canções, com influências de samba e refrões de pop. A mensagem pede mudança, mas pelo caminho do amor, e o título é o fio que liga tudo isso.

Faixas de destaque

AmarElo

A faixa-título tem Majur e Pabllo Vittar e traz um sample de “Sujeito de Sorte”, de Belchior, do disco Alucinação (1976). Segundo a Rolling Stone Brasil (2019), o clipe foi gravado no Complexo do Alemão, com direção de Sandiego Fernandes e roteiro de Emicida. Emicida disse à revista que, se a primeira música do disco queria que as pessoas se sentissem grandes diante do espelho, “AmarElo” quer que se vejam maiores que seus problemas. A resenha do Sounds and Colours considera esta uma das letras mais fortes do álbum.

Principia

Abre o disco. Para a resenha do Sounds and Colours, de Debora Baldelli (2020), apresenta a proposta do álbum: cada música traz um sentido direto e uma mensagem clara. A faixa reúne a cantora Fabiana Cozza, um pastor e um coro de pastoras, o que já mostra que o disco aposta em vozes muito diferentes entre si.

Eminência Parda

Single de maio de 2019, com Dona Onete, Jé Santiago e Papillon. Reúne Dona Onete, cantora paraense, com o rap de Emicida. Foi o primeiro aviso de que o álbum ia abrir a roda para quem não era do rap.

Ismália

Com Larissa Luz e a atriz Fernanda Montenegro, que faz uma narração no disco, segundo a Rolling Stone Brasil. Com quase seis minutos, está entre as faixas mais longas do álbum. No show do Theatro Municipal, Larissa Luz cantou a música com Emicida.

Libre

Fecha o álbum em menos de três minutos, com o duo Ibeyi, que, segundo a Rolling Stone Brasil (2019), estava anunciado para dividir com Emicida o palco Sunset do Rock in Rio em 3 de outubro. É um desfecho curto, que deixa o ouvinte com a sensação de que a conversa continua.

Recepção da crítica

A recepção foi calorosa. Debora Baldelli, no Sounds and Colours (2020), descreveu o disco como nostálgico, político e otimista, e escreveu que ele “may well be the best new Brazilian album you will hear in 2020”. Para ela, o álbum responde à violência, à injustiça e às desigualdades de gênero e raça no Brasil, e propõe tolerância e respeito à fé.

A Associação Paulista de Críticos de Arte o incluiu entre os 25 melhores álbuns brasileiros do segundo semestre de 2019, segundo a Wikipédia. Em 2022, uma enquete do jornal O Globo com 25 especialistas o citou entre os melhores discos brasileiros dos 40 anos anteriores. O disco foi certificado como platina no Brasil pela Pro-Música Brasil, de acordo com a Wikipédia.

O lançamento ao vivo também virou notícia. Em 27 de novembro de 2019, Emicida fez dois shows no Theatro Municipal de São Paulo, às 16h e às 21h. Os ingressos acabaram em cerca de dez minutos, segundo a Rolling Stone Brasil. Os shows foram filmados para o documentário Experimento Social AmarElo. Emicida disse à plateia: “Vejo vocês no livro de história”, e agradeceu a ajuda de todos com a frase “Sozinho, a gente não faz nada” (Rolling Stone Brasil, 2019). A matéria lembra que o rap ocupou ali um espaço historicamente ligado à elite cultural.

Legado

O primeiro legado é a ponte entre gerações. Em um único álbum, Emicida juntou Zeca Pagodinho, Marcos Valle, Dona Onete, Fernanda Montenegro e uma geração nova de rappers e cantoras como MC Tha, Drik Barbosa e Larissa Luz. O rap deixou de ser visto como um gênero isolado e passou a conversar de igual para igual com o samba, a bossa e a música do Norte.

O segundo é o resgate de Belchior. O sample de “Sujeito de Sorte” apresentou a canção, composta nos anos 1970, a ouvintes mais jovens, num clipe que abre com o verso do cantor cearense. A Rolling Stone Brasil chegou a descrever a música como candidata a canção do ano.

O terceiro é o formato. AmarElo teve vida além do disco: o show no Theatro Municipal, o documentário e a turnê. O título vem de um poema de Paulo Leminski, segundo o Sounds and Colours, e “amar” mais “elo” resume a ideia de conexão.

Como candidato a álbum da década, AmarElo tem argumentos claros. É um disco coeso, com começo, meio e fim, em que as participações servem à ideia e não à vitrine. Alcançou público amplo sem diluir o discurso, e fez isso falando de afeto em um país marcado por violência. Talvez nenhum outro disco da década tenha reunido tantas gerações da música brasileira numa mesma lista de faixas.