A década em poucas linhas
Os anos 2010 foram a década em que a música brasileira mais interessante passou a nascer fora dos caminhos de sempre. Os cinco álbuns desta votação mostram isso de formas diferentes. Dois deles, o de Criolo e o do Metá Metá, chegaram ao público por download gratuito. Um terceiro, o de Luedji Luna, foi financiado em parte por vaquinha na internet. O de Elza Soares teve patrocínio de um programa de incentivo à cultura, o Natura Musical. Só o de Emicida saiu por um selo ligado a uma grande gravadora, e mesmo assim o selo é do próprio artista, o Laboratório Fantasma.
Esse desenho de mercado ajuda a entender o som. Sem a obrigação de caber em rádio, os discos se permitiram misturar. Em Nó na Orelha, rap convive com samba, brega, dub e afrobeat. Em MetaL MetaL, candomblé e guitarra pesada tocam juntos. Em A Mulher do Fim do Mundo, uma cantora de samba grava ao lado de músicos vindos da vanguarda paulistana, com pós-punk, noise e metais de afrobeat. Em AmarElo, o rap recebe Zeca Pagodinho, Marcos Valle e Dona Onete.
São Paulo como laboratório
Vários nomes se repetem de um disco para outro. Marcelo Cabral produz Nó na Orelha, toca no MetaL MetaL e no disco de Elza. Kiko Dinucci toca em Nó na Orelha, lidera o Metá Metá e está no disco de Elza. Thiago França e Juçara Marçal aparecem em mais de um deles. Uma cena de músicos que trabalham entre si, de estúdio em estúdio, deu coerência a uma década que, de fora, pareceria dispersa.
O palco como prova
Outro traço é a ligação com o show. Criolo contou à Rolling Stone Brasil que o som coletivo de Nó na Orelha foi formado no palco. Kiko Dinucci disse que o MetaL MetaL nasceu das mudanças que as músicas sofriam ao vivo. Elza estreou a turnê no dia do lançamento, no Auditório Ibirapuera. Emicida levou AmarElo ao Theatro Municipal de São Paulo, com ingressos esgotados em cerca de dez minutos.
Novas vozes e novos temas
Os cinco discos falam de raça, cidade, violência e afeto. Há violência doméstica em Elza, deslocamento e ancestralidade em Luedji, desigualdade paulistana em Criolo, fé e resistência em Metá Metá, amor como ato político em Emicida. Dois dos cinco, os de Elza Soares e Luedji Luna, têm mulheres negras como figura central, e isso desloca o centro de gravidade do que se chama de MPB.
Por que estes cinco
Nó na Orelha (Criolo, 2011). Foi o disco que abriu a década. Rolling Stone Brasil o elegeu o melhor álbum nacional de 2011, e Criolo levou o prêmio de Álbum do Ano no VMB. Disputa porque mostrou que o rap paulistano cabia numa banda de estúdio.
MetaL MetaL (Metá Metá, 2012). É o mais radical em som. Disputa por juntar o terreiro e o barulho elétrico sem enfeitar nenhum dos dois, e por ter sido a base de um grupo que seguiu girando pela Europa.
A Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares, 2015). É o de maior consenso crítico, com cinco estrelas na Rolling Stone Brasil e no Guardian e o Grammy Latino de MPB. Disputa pela coragem de uma voz consagrada ao se reinventar.
Um Corpo no Mundo (Luedji Luna, 2017). É a estreia mais madura da lista. Disputa pela força de uma ideia, o corpo negro em deslocamento, e pelo fôlego: mais de 100 milhões de plays, segundo a Rolling Stone Brasil.
AmarElo (Emicida, 2019). Fecha a década com o disco de maior alcance de público. Disputa por reunir gerações num só álbum e por transformar o afeto em argumento político.