Panorama da década
Os anos 1990 foram a década em que a música brasileira deixou de caber numa só fotografia. De um lado, a MPB seguia forte, com cantoras como Marisa Monte levando o repertório clássico para um som mais arrojado. Do outro, uma geração nova de bandas e grupos de rap apareceu com sotaque regional, humor e raiva, e passou a disputar a mesma atenção.
Gravadoras e selos
O início da década foi marcado por selos que apostaram em gente que as grandes empresas ainda não sabiam classificar. A Banguela Records, criada pelos Titãs com o produtor Carlos Eduardo Miranda, foi um deles. A Rolling Stone Brasil descreve o selo como uma central informal do underground que durou pouco mais de um ano, mas que deixou marca na cena. Já a Sony Music abriu o selo Chaos, por onde saíram, em 1994, discos de Chico Science & Nação Zumbi e do Skank. A Wikipédia registra que o Skank e Gabriel o Pensador receberam disco de ouro rápido nessa leva, enquanto o disco de Chico vendeu pouco no começo.
Fora do circuito das grandes empresas, os Racionais MC’s criaram a Cosa Nostra Fonográfica e lançaram Sobrevivendo no Inferno por conta própria, em dezembro de 1997. O grupo evitava entrevistas e promoção convencional, segundo a Wikipédia em inglês, e ainda assim fez do álbum o disco de rap mais vendido do país.
Regionalismo e mistura
Um traço comum a vários discos da década é o interesse pelas raízes locais, misturado com sons de fora. O manguebeat, do Recife, juntou alfaias de maracatu, guitarra e samplers. O Skank tomou o reggae e o ska e os temperou com referências de Minas Gerais. Os Raimundos puseram forró dentro do hardcore. A PopMatters, ao falar do Skank, relaciona o disco de 1994 com os de Chico Science e dos Raimundos como parte de uma mesma geração.
O ano de 1994, em especial, concentrou lançamentos de peso. Foi quando saíram Calango, Da Lama ao Caos e o disco de estreia dos Raimundos. O festival Abril Pro Rock, em sua segunda edição, abriu espaço para a banda de Chico Science na época do lançamento, e o Hollywood Rock de 1994 recebeu o Skank.
Periferia e voz própria
O rap paulistano mostrou na década que dava para falar de violência urbana, racismo e desigualdade com linguagem direta. O massacre do Carandiru, em 1992, aparece como pano de fundo de Sobrevivendo no Inferno, de acordo com a Wikipédia em inglês. Duas décadas depois, em 2018, a Unicamp incluiu o disco na lista de leituras obrigatórias do vestibular, a primeira vez que um álbum musical foi indicado para o exame.
Por que estes cinco
Mais (Marisa Monte, 1991). Disputa porque foi o disco que afastou Marisa da imagem de intérprete de clássicos, com produção de Arto Lindsay, músicos de Nova York e canções de autores dos Titãs. Vendeu bem e ainda é lembrado pelo ecletismo.
Calango (Skank, 1994). Entra pelo alcance. Reuniu reggae, ska e pop mineiro em canções de rádio como “Te Ver” e “Jackie Tequila”, com cerca de 1,2 milhão de cópias vendidas, segundo a Wikipédia.
Da Lama ao Caos (Chico Science & Nação Zumbi, 1994). Disputa pela invenção de um som. Foi eleito, em 2022, o melhor disco da MPB dos 40 anos anteriores numa enquete do jornal O Globo com 25 especialistas.
Raimundos (Raimundos, 1994). Entra pela atitude: forró acelerado por guitarras de punk, em faixas curtas e sem cerimônia. Vendeu cerca de 200 mil cópias até meados de 1996, de acordo com a Wikipédia.
Sobrevivendo no Inferno (Racionais MC’s, 1997). Disputa pelo peso cultural. Independente, longo e sombrio, tornou-se o disco de rap mais vendido do Brasil e chegou à sala de aula.