Contexto e gravação
O Skank chegou ao segundo disco com o que toda banda jovem deseja e teme ao mesmo tempo: uma chance real de dar certo. O grupo de Belo Horizonte tinha estreado com um álbum gravado na capital mineira. Para Calango, a decisão foi mudar de cidade, de estúdio e de método. A banda foi para o Rio de Janeiro e gravou no Nas Nuvens, estúdio onde também se gravava, na mesma época, o disco de estreia de Chico Science & Nação Zumbi. Segundo a Wikipédia, as sessões foram em julho e agosto de 1994 e duraram cerca de um mês.
A formação era a de sempre: Samuel Rosa na guitarra e na voz, Henrique Portugal nos teclados, Lelo Zaneti no baixo e Haroldo Ferretti na bateria. A novidade estava atrás do vidro. O produtor Dudu Marote entrou no projeto depois de um show em São Paulo em que o Skank dividiu o palco com a Vaca de Pelúcia, banda que ele produzia. Marcos Gauguin, que já havia viajado com o grupo e mixado o primeiro disco, também assina a produção, ao lado dos próprios músicos. O álbum saiu em outubro de 1994 pelo selo Chaos, ligado à Sony Music. A PopMatters, em texto de 2024, dá o dia 15 de outubro.
Um disco com sopros e um bom humor mineiro
Nas gravações, a banda recebeu convidados para dar corpo aos arranjos: Chico Amaral no saxofone, João Vianna no trompete e Ed Maciel no trombone. Guilherme Callichio assobia em “Jackie Tequila”. Chico Amaral é também o parceiro de Samuel Rosa na maior parte das letras, o que dá ao repertório uma voz literária discreta, sem pose.
O nome do disco vem de uma tradição de Minas Gerais, o desafio cantado de improviso, retratado em “A Cerca”. A capa também tem história: a fantasia que aparece no encarte foi criada por Ilson Lorca para as comemorações da Copa do Mundo de 1994, e é o baixista Lelo Zaneti quem a veste.
Duas canções, “Amolação” e “Jackie Tequila”, já faziam parte do repertório de shows. Outra, “É Proibido Fumar”, de Roberto e Erasmo Carlos, foi gravada para o álbum-tributo REI, também de 1994, e Frejat coproduziu essa faixa.
Faixas de destaque
Te Ver
A canção que mais tocou nas rádios. Assinada por Samuel Rosa, Lelo Zaneti e Chico Amaral, tem andamento enérgico e refrão que gruda. A PopMatters a classifica como um dos maiores sucessos de rádio do disco. Saiu em single em 1995.
Jackie Tequila
O Caribe aparece aqui de forma explícita. A PopMatters descreve uma levada de influência caribenha que, segundo o crítico, seria quase impossível para a banda um ano antes. Os sopros e o assobio de Callichio dão ao arranjo um ar de festa de rua. A música já circulava nos shows antes de chegar ao estúdio, e isso se nota na segurança do conjunto.
É Proibido Fumar
Versão de uma canção da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Foi o primeiro single, em 1994, e funcionou como cartão de visita do disco. O Skank trata a música com reggae, e com isso muda o clima do original sem desrespeitá-lo.
A Cerca
É o passo mais largo do disco em direção às sonoridades tradicionais. Henrique Portugal divide os versos com Samuel Rosa num diálogo de estilo rural, que remete ao desafio cantado que inspirou o título. A PopMatters destaca o trabalho de Lelo Zaneti ao baixo nessa faixa. Fernando Furtado aparece como coautor ao lado de Samuel e Chico.
Pacato Cidadão
Fecha o álbum e saiu em single em 1995. A PopMatters elogia a percussão de Haroldo Ferretti e o humor de Samuel Rosa, e aponta que a música cita, de passagem, a melodia de “Let ’Em In”, dos Wings. Para o crítico, a citação é uma reverência, e não uma colagem preguiçosa.
Recepção da crítica
O AllMusic deu ao álbum quatro estrelas em cinco. A Wikipédia registra a opinião do próprio Samuel Rosa, que descreve o disco como uma mistura de sonoridade dos anos 1990 com características musicais dos anos 1960. Em 2024, ao completar 30 anos, o disco ganhou uma leitura longa na PopMatters, assinada por Davi Caro, que o chama de “incrivelmente visionário” pelo uso de referências regionais dentro de uma estrutura pop. O mesmo texto vê no álbum uma inclinação maior para o dancehall, com o rock recuado em favor da construção pop.
Nem tudo é elogio. O crítico considera “Chega Disso!” e “Sam” mais comuns do que o resto, e prefere “O Beijo e a Reza” a “Esmola” depois de várias audições. A observação é útil porque mostra que o álbum não vive só de faixas fortes: vive de um nível médio alto.
A Wikipédia informa que o disco vendeu cerca de 1,2 milhão de cópias, com notas de rodapé do Discogs e do site immub.org, e traz uma tabela de certificação Diamante pela ABPD, de 1996, com o número 1.000.000, apoiada numa página da própria ABPD. Não consegui abrir a página da entidade para conferir, então trato esse dado como informação da Wikipédia. A PopMatters lembra um detalhe do mercado: naquele período, o formato single estava praticamente morto no Brasil, e mesmo assim “Pacato Cidadão”, “Jackie Tequila” e “Amolação” tocaram muito no rádio.
O disco também aparece ao lado de outros dois lançamentos de 1994, o de Chico Science & Nação Zumbi e o de estreia dos Raimundos, na descrição da PopMatters de uma geração que mexeu com o rock brasileiro naquele ano. A banda se apresentou no festival Hollywood Rock de 1994, na época do lançamento.
Legado
O principal legado de Calango é ter mostrado que o pop brasileiro dos anos 1990 podia ter sotaque jamaicano sem soar como cópia. O reggae e o ska já tinham passado pelo rock brasileiro antes, mas o Skank os colocou no centro de um disco de grande público, com sopros de verdade, letras bem escritas e melodias fáceis de cantar.
Outro ponto é a longevidade. Em 2010, a Wikipédia registra uma edição comemorativa de 15 anos, remasterizada e com oito faixas extras, entre elas remixes de “Te Ver” e “A Cerca”, versões em espanhol de “É Proibido Fumar” e “Amolação” e demos de quatro canções. Uma edição assim, com material de bastidor, só se faz para um disco que continua sendo procurado.
O terceiro ponto é o que o álbum diz sobre a banda. O Skank seguiu para O Samba Poconé, em 1996, e fez turnês pela Ásia, Europa e América Latina, de acordo com a PopMatters. A banda encerrou a carreira com uma turnê de despedida, concluída em 2022. Olhando para trás, Calango é o disco em que o grupo encontra o equilíbrio entre o humor mineiro, o balanço jamaicano e a ambição de rádio.
Como candidato ao melhor disco da década, o argumento do Skank é de alcance: poucos álbuns de 1994 tocaram em tantos lugares ao mesmo tempo. Quem escuta hoje ouve um trabalho de pop competente e curioso, que não depende de nostalgia para funcionar. Os sopros ainda soam bem, o baixo ainda empurra a música e a ironia de “Pacato Cidadão” continua fácil de reconhecer.