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Disco da Década: página inicial
DISCO DA DÉCADA · 1990MAISMARISA MONTE1991
Anos 1990

Mais

Marisa Monte · 1991 · EMI

Faixas de destaque:

  • Beija Eu
  • Ensaboa
  • Ainda Lembro
  • Rosa
  • Eu Sei (Na Mira)
Votar nos anos 1990

Contexto e gravação

Em 1991, Marisa Monte tinha 23 anos e uma pergunta pela frente: o que fazer depois de um sucesso grande demais para o tamanho da carreira? Ela havia sido descoberta por Nelson Motta em 1988. Seu primeiro disco, MM, de 1989, era um registro ao vivo e chegou a um milhão de cópias em poucos meses, segundo a Wikipédia. Com esse número, a gravadora esperava mais do mesmo: uma cantora de voz bonita que reinterpreta clássicos da música brasileira.

Mais é a resposta a essa expectativa. O disco saiu em 13 de março de 1991, pela EMI, e é o primeiro álbum de estúdio da cantora. A intenção, de acordo com o verbete da Wikipédia, era romper com a imagem de “crooner talentosa” e construir uma identidade própria, com repertório novo e gente nova ao redor.

O produtor que ninguém esperava

Marisa escolheu Arto Lindsay depois de ver a banda dele, a Ambitious Lovers. Lindsay é um guitarrista e cantor americano criado no Brasil, ligado à cena experimental de Nova York. Escolha curiosa para um disco de pop brasileiro, e justamente por isso interessante. Foi ele quem abriu a agenda de contatos: Ryuichi Sakamoto e Bernie Worrell nos teclados, John Zorn e Marty Ehrlich nos saxofones, Marc Ribot nas guitarras, Melvin Gibbs no baixo e Dougie Bowne na bateria.

A gravação aconteceu entre setembro e novembro de 1990. Os estúdios foram o Skyline e o Criative Audio, em Nova York, e o Impressão Digital e o Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Do lado brasileiro, o elenco inclui Naná Vasconcelos e Armando Marçal na percussão, Robertinho do Recife e Romero Lubambo nas guitarras e Ricardo Feijão no baixo. Em “Ensaboa”, entram as Pastoras da Velha Guarda da Portela nos vocais.

Quem escreveu as canções

Marisa pediu composições a Renato Russo, Marina Lima e Herbert Vianna, conforme o verbete. O resultado final, porém, ficou com outra turma: sete das oito canções inéditas tiveram a participação de integrantes dos Titãs, entre eles Arnaldo Antunes, Nando Reis e Branco Mello. Nando assina quatro das doze faixas. Só “Eu Sei (Na Mira)” é de Marisa sozinha. As outras quatro são releituras: “De Noite na Cama”, de Caetano Veloso, “Rosa”, de Pixinguinha e Otávio de Souza, “Borboleta”, do folclore nordestino, e “Ensaboa”, de Cartola e Monsueto.

Faixas de destaque

Beija Eu

Abre o disco e foi o primeiro single, em 1991. Leva a assinatura de Marisa, Arnaldo Antunes e do próprio Arto Lindsay. É curta, tem pouco mais de três minutos, e entrega o que o álbum quer ser: uma canção pop direta, com guitarra de Marc Ribot e teclados de Bernie Worrell, que soa moderna sem abandonar a melodia.

Ensaboa

O samba de Cartola ganha uma moldura incomum. As Pastoras da Velha Guarda da Portela cantam ao lado de Marisa, e Sakamoto, Zorn e Ehrlich aparecem na ficha técnica da faixa. É um encontro entre a tradição do samba carioca e músicos de Nova York, e ele funciona porque o arranjo deixa o samba respirar. Um bom ponto de partida para entender a proposta do disco.

Ainda Lembro

Parceria de Marisa com Nando Reis, com participação de Ed Motta. Saiu como single em 1992 e tocou na novela Deus Nos Acuda, da Globo. Aqui o clima é mais íntimo, com guitarra de Robertinho do Recife e teclados de Sakamoto, e mostra que o álbum sabia desacelerar.

Rosa

A melodia é de Pixinguinha, com letra de Otávio de Souza. A faixa dura menos de três minutos e não precisa de mais. Virou o caso mais longevo do disco em televisão: a Wikipédia registra sua presença nas novelas Fera Ferida, Desejo Proibido, Espelho da Vida e Além da Ilusão. Foi single em 1993.

Eu Sei (Na Mira)

A única faixa assinada só por Marisa. Foi single em 1991 e entrou na trilha da novela O Dono do Mundo. Mostra que a cantora já escrevia canções completas, e não apenas interpretava as dos outros.

Mustapha

O fecho do disco, parceria de Marisa e Nando Reis, dura pouco mais de dois minutos. A faixa é uma homenagem a Mustapha Barat, cinegrafista e fotógrafo marroquino que Marisa conheceu em Nova York. Fecha o álbum com um tom de conversa entre amigos, depois de um repertório que passeou por vários gêneros.

Recepção da crítica

A recepção inicial foi dividida. O jornal O Estado de S. Paulo elogiou o trabalho em 1991, e uma retrospectiva do mesmo jornal, assinada por Edmundo Leite em 2012, descreveu a cantora como “menos dramática” e com a voz “mais afinada e cristalina”. Já O Globo, segundo a Wikipédia, publicou duas críticas pouco positivas, questionando repertório e interpretações.

A leitura mais favorável veio com o tempo. Em 2020, Mauro Ferreira, no G1, disse que o disco “reverteu expectativas” de quem esperava outro álbum de joias da música brasileira. Ele considerou acertado o ecletismo do repertório, que reúne MPB, rock, samba e música do Nordeste.

O público respondeu bem. O disco chegou à terceira posição da parada Billboard World Albums, nos Estados Unidos, em 1991. No Brasil, recebeu certificação de disco de platina duplo da Pro-Música Brasil, e uma estimativa da revista Trip, publicada em 2000, fala em cerca de 710 mil cópias vendidas.

As fontes consultadas não registram prêmios do álbum nem sua presença em listas de “melhores de todos os tempos”, e por isso o texto não afirma nenhum dos dois. A Wikipédia em inglês também não traz essas informações.

Legado

O primeiro legado de Mais é de método. Marisa mostrou que dava para fazer um disco pop brasileiro com produtor estrangeiro, músicos de jazz e vanguarda de Nova York e autores do rock nacional sem perder a identidade. A mistura de Titãs, Cartola e Pixinguinha no mesmo repertório ajudou a desfazer a ideia de que o samba antigo e o pop novo viviam em prateleiras separadas.

O segundo é a vida das canções fora do disco. “Rosa” seguiu aparecendo em novelas por décadas, o que mantém a faixa em circulação para quem nunca ouviu o álbum inteiro. “Eu Sei (Na Mira)” e “Ainda Lembro” também passaram pela televisão. A Wikipédia lista cinco singles ao todo, número alto para um álbum de doze faixas.

O terceiro é a leitura que a crítica fez depois. O texto de Mauro Ferreira em 2020 trata o álbum como um disco a ser descoberto, e não apenas lembrado, o que sugere que ele ainda guarda surpresa. Quem ouve hoje encontra um trabalho que alterna faixas de menos de dois minutos, como “Borboleta” e “Eu Não Sou da Sua Rua”, com baladas de mais de quatro. O ritmo de álbum de autor, e não de coletânea de sucessos, é parte do charme.

Como candidato ao melhor disco brasileiro dos anos 1990, Mais defende uma tese específica: a de que o pop da década nasceu do cruzamento entre a tradição e o experimentalismo, e não da escolha de um lado. É um argumento mais discreto do que o de discos que mudaram a cena de um estado ou de uma periferia. Mas é um argumento que o disco sustenta com a própria escalação, com a escolha das músicas e com a qualidade da voz.