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DISCO DA DÉCADA · 1990RAIMUNDOSRAIMUNDOS1994
Anos 1990

Raimundos

Raimundos · 1994 · Banguela Records / Warner Music

Faixas de destaque:

  • Puteiro em João Pessoa
  • Nêga Jurema
  • Palhas do Coqueiro
  • Bê a Bá
  • Selim
Votar nos anos 1990

Contexto e gravação

Os Raimundos começaram em 1987, quando Digão e Rodolfo Abrantes começaram a tocar juntos, quase sempre com o baixista Canisso. O repertório inicial misturava covers dos Ramones com versões punk de músicas do forrozeiro Zenilton, de acordo com a Wikipédia. Dessa mistura saiu o que a imprensa chamaria de “forrócore”, e o que eles mesmos tratavam sem cerimônia: rock rápido, sotaque nordestino, humor de boteco.

Em 1993, já com Fred Castro na bateria, a banda gravou uma fita demo com quatro faixas: “Nêga Jurema”, “Marujo”, “Palhas do Coqueiro” e “Sanidade”. Uma gravadora do Rio de Janeiro recusou o material e pediu menos palavrões e guitarras mais leves. O jornalista Carlos Marcelo enviou a fita a Carlos Eduardo Miranda, produtor que estava montando um selo com os Titãs. Miranda assinou o grupo com a Banguela Records.

O selo Banguela

A Banguela foi criada pelos Titãs com Miranda e foi uma das gravadoras independentes que ajudaram a formar a cena do rock brasileiro no início dos anos 1990. A Rolling Stone Brasil descreve o selo como uma central informal do underground que durou pouco mais de um ano. O contrato de distribuição com a Warner previa cinco álbuns por ano, segundo a Wikipédia. Miranda disse à revista que o mais interessante foi mexer na estrutura e mostrar que podia ser diferente.

Estúdio e orçamento

O disco foi gravado em janeiro e fevereiro de 1994, no Estúdio Be Bop, em São Paulo, em 24 canais, e masterizado no Magic Master, no Rio. A Wikipédia informa um orçamento de 20 mil reais. A produção ficou com Carlos Eduardo Miranda e os Raimundos, e os Titãs assinaram a direção artística. Os integrantes eram Rodolfo Abrantes (voz), Digão (guitarra e vocais), Canisso (baixo e vocais) e Fred Castro (bateria).

Houve convidados. Nando Reis tocou violão em “Puteiro em João Pessoa” e viola em “Selim”. Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto fizeram coros em “Carro Forte”, “Bê a Bá” e “Bicharada”. João Gordo cantou ao fundo em “MM’s”. Zenilton, o forrozeiro que os rapazes covereavam desde o começo, tocou sanfona em “Rio das Pedras” e “Marujo”.

Faixas de destaque

Puteiro em João Pessoa

Abre o disco, com pouco mais de três minutos, e virou a faixa que identifica a banda. É um relato de humor sobre a primeira visita a uma casa de prostituição. Foi single em abril de 1994 e ganhou videoclipe. É um bom resumo de como o grupo escrevia: história curta, linguagem direta, riff de punk rock.

Nêga Jurema

Foi o primeiro single e o primeiro clipe, dirigido por José Eduardo Belmonte. A votação do público na MTV a escolheu para representar o Brasil nos Estados Unidos, mas ela perdeu para “Territory”, do Sepultura. Já estava na demo de 1993. O ritmo nordestino aparece com clareza, e a guitarra segue na velocidade do hardcore.

Palhas do Coqueiro

Também veio da fita demo. A faixa dura menos de dois minutos e, mesmo assim, ganhou clipe e foi single em 1995. É a canção que mais se aproxima da ideia original da banda: forró acelerado por guitarras.

Bê a Bá

Um dos singles de 1994, com videoclipe. Tem coro de Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto, o que mostra o quanto a turma dos Titãs estava envolvida no projeto. Dura dois minutos e meio, na média do disco.

Selim

A balada do álbum e a faixa mais longa, com mais de quatro minutos. É assinada por Cristiano Telles e pelos Raimundos. Nando Reis toca viola. Segundo a Rolling Stone Brasil, Rodolfo era o principal opositor da canção, que achava leve e de sotaque brega demais. Miranda o convenceu com um blefe: disse que, se Rodolfo não cantasse, chamaria o cearense Falcão para gravá-la. Rodolfo respondeu que então cantava ele mesmo. É o relato de Miranda, sem confirmação de outra fonte. Saiu em single em maio de 1994, e a edição em CD traz uma versão acústica como faixa bônus.

Recepção da crítica

A Folha de S.Paulo noticiou o disco em abril de 1994 com a manchete “Os Raimundos lançam heavy-sertanejo”, uma tentativa de dar nome a algo que não se encaixava nos rótulos da época. O AllMusic deu ao álbum três estrelas em cinco.

A fonte que sustenta a recepção crítica é pequena. A própria Wikipédia avisa que a seção sobre o tema precisa ser ampliada e não traz outras resenhas de imprensa. Por isso, o texto evita atribuir a críticos opiniões que as fontes consultadas não registram.

A resposta do público é mais fácil de medir. Segundo a Wikipédia, o álbum vendeu cerca de 200 mil cópias até meados de 1996 e foi certificado com disco de ouro pela ABPD. Para uma estreia em selo pequeno, o resultado é expressivo.

Há uma divergência de data a registrar. A Wikipédia dá 12 de abril de 1994 como o dia do lançamento, sem fonte direta para a data. A reportagem da Folha de S.Paulo sobre o disco é de 18 de abril de 1994, o que combina com abril. Maio aparece na Wikipédia só como mês do single “Selim”. Este texto fica com abril, e as fontes consultadas não trazem o dia por documento da gravadora.

Legado

O legado dos Raimundos está menos numa escola de imitadores e mais numa possibilidade que o disco deixou aberta para o rock brasileiro. Os Raimundos tocaram forró no mesmo volume do punk e sem pedir desculpas, com palavrão e piada que a gravadora do Rio havia pedido para cortar.

O disco também prova o valor de um selo pequeno e de um produtor atento. Miranda pegou uma demo rejeitada por outra gravadora e transformou numa estreia de 40 minutos, com 14 faixas e duas bônus no CD, a maioria com menos de três minutos. O resultado vem do formato: sem enrolação, sem faixa de transição, sem pretensão de manifesto.

O documentário Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94, dirigido por Ricardo Alexandre, voltou a esse período da cena independente, com depoimentos como os de Dado Villa-Lobos e Samuel Rosa. A série Andar na Pedra: A História dos Raimundos, disponível no Globoplay, aparece entre as referências da Wikipédia e mostra que a banda segue sendo tema de produção audiovisual.

Como candidato ao melhor disco dos anos 1990, Raimundos defende uma ideia simples: o rock brasileiro também podia ser engraçado, rápido e regional, e ainda assim vender. É um argumento de energia e de atitude. Quem ouve hoje percebe que as músicas envelheceram menos em produção do que em frescor: o som é cru, mas a vontade de tocar continua visível.