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DISCO DA DÉCADA · 2010METALMETALMETÁ METÁ2012
Anos 2010

MetaL MetaL

Metá Metá · 2012 · Mais Um Discos

Faixas de destaque:

  • São Jorge
  • Rainha das Cabeças
  • Tristeza Não
  • Exu
Votar nos anos 2010

Contexto e gravação

O Metá Metá nasceu em 2008 como um trio: Juçara Marçal na voz, Kiko Dinucci na guitarra e Thiago França no sax. O nome vem do iorubá e quer dizer “três”, numa referência direta à formação. O primeiro disco, chamado apenas Metá Metá, saiu em 2011. MetaL MetaL é o segundo, e chegou pouco mais de um ano depois. Segundo a Carta Capital, o álbum foi disponibilizado para download gratuito em 7 de novembro de 2012.

O título é uma brincadeira que ficou. Nos shows, os arranjos das músicas iam ficando mais pesados, e o grupo passou a ser chamado de MetaL MetaL, em alusão ao metal. Kiko Dinucci descreveu o processo de gravação como natural, resultado das transformações que a banda sofria no palco. As músicas já eram tocadas ao vivo antes de entrar em estúdio. A Rolling Stone Brasil registra a mesma ideia: a identidade do grupo ficou ligada ao palco a partir desse disco, e Kiko disse que a banda passou a mudar muito as canções ao vivo, deixando-as “mais fortes, elásticas, improvisadas”.

A formação cresceu para o disco. Além do trio, entram Marcelo Cabral no baixo, Sergio Machado na bateria e Samba Sam na percussão. Dinucci assumiu a guitarra de vez neste trabalho. Ele tinha deixado o instrumento de lado por um tempo e quis criar nele uma assinatura própria, como já havia feito com o violão. A capa é uma gravura em madeira feita por ele.

São nove faixas. Algumas já existiam em outros projetos de Kiko. “São Jorge” tinha sido gravada em Padê, de 2009, disco assinado por Kiko e Juçara. “Rainha das Cabeças” vinha do álbum Pastiche Nagô, de 2008, composta por Kiko e Douglas Germano. O disco ainda traz uma versão de “Tristeza Não”, de Alice Ruiz e Itamar Assumpção, um dos ídolos de Kiko. Segundo ele, essas canções foram mudando nos shows, ficaram mais pesadas, e por isso entraram no disco.

As fontes consultadas não informam o estúdio, o produtor nem as datas exatas de gravação. Sabe-se que o disco saiu pelo selo Mais Um Discos, o mesmo que a Sounds and Colours chama de pioneiro, e que a estreia do trio, de 2011, tinha sido lançada antes.

Faixas de destaque

São Jorge

Gravada antes, em 2009, ganha aqui outro corpo. Com baixo, bateria e percussão ao lado do trio, a música ganha um chão rítmico que a versão anterior não tinha, e a guitarra de Kiko, mais pesada, empurra o arranjo. É uma boa porta de entrada para entender como o grupo trata o repertório de santo: sem reverência de museu, com energia de palco.

Rainha das Cabeças

Também vem de um disco anterior de Kiko, o Pastiche Nagô. Composta com Douglas Germano, é uma canção ligada à tradição afro-brasileira. No MetaL MetaL, o arranjo ganha a pressão do baixo de Cabral e da bateria de Machado, e a percussão de Samba Sam mantém o toque de terreiro vivo por baixo da distorção.

Tristeza Não

A música é de Alice Ruiz e Itamar Assumpção, e Itamar era um dos ídolos de Kiko. A escolha liga a banda à vanguarda paulistana, tradição que Itamar ajudou a firmar. Mostra também que o MetaL MetaL não quer ficar só na referência africana. A canção entra no mesmo caldeirão de samba, jazz e rock.

Exu

A Sounds and Colours, em resenha de Marco Canepari de 2014, cita “Exu” ao lado de “Orunmila”, “Logun” e “Oya” como nomes de espíritos do panteão dos orixás que batizam faixas do disco. Exu é o orixá ligado à comunicação e à passagem, e dar o nome dele a uma música é um bom resumo da proposta do disco: o sagrado tratado com som de rua. As fontes consultadas não detalham o arranjo desta faixa.

Recepção da crítica

O disco teve boa recepção fora do Brasil. O site britânico Sounds and Colours o colocou em 19º lugar na lista dos 20 melhores álbuns de 2012. Russ Slater, autor do texto, escreveu que a banda “se afasta do afro-samba da estreia em direção ao afrobeat incendiário e ao jazz experimental” (Sounds and Colours, 2012; tradução livre). Em 2014, o mesmo site voltou a tratar do álbum e lembrou que ele acrescentou baixo e bateria, deixou o som mais alto e rendeu elogios da crítica.

No Brasil, o reconhecimento veio em premiação. Em 2013, o disco foi indicado ao Prêmio Multishow de Música Brasileira em três categorias: Melhor Álbum, Versão do Ano e Música Compartilhada. Venceu a última.

Uma ficha de loja de discos (Bent Crayon Records), que vendeu a prensagem em vinil feita fora do Brasil, descreve a mistura como samba psicodélico, jazz distorcido e afro-punk. Segundo a mesma página, a base espiritual e rítmica vem do candomblé, combinada com afrobeat, afrosambas, punk e be-bop. Ela compara o resultado a nomes como The Stooges, Sonic Youth, John Coltrane e Sun Ra. É texto de venda, não crítica independente, mas ajuda a entender como o disco foi apresentado ao público estrangeiro. Segundo a mesma ficha, o disco foi “originalmente lançado em 2013”, e a edição inclui um compacto de 7 polegadas com duas faixas gravadas no Brasil com o baterista nigeriano Tony Allen. Aqui há divergência de ano: a Carta Capital e a Wikipédia em inglês apontam 2012, e a loja diz 2013. A explicação provável é que a loja se refira à circulação internacional, mas as fontes consultadas não esclarecem isso. Este texto usa 2012, o ano do download gratuito noticiado pela Carta Capital.

Legado

MetaL MetaL fixou o jeito de a banda ser vista. Depois dele, o Metá Metá deixou de ser projeto paralelo de três músicos conhecidos e virou grupo com assinatura, capaz de girar pela Europa. O Sounds and Colours noticiou uma turnê europeia em novembro e dezembro de 2014, com datas em Londres, Paris e Bruxelas.

O disco também ajuda a explicar a década. Kiko Dinucci, Thiago França, Marcelo Cabral e Juçara Marçal aparecem em vários discos importantes dos anos 2010. Dinucci e Cabral tocam em A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, e França também está lá, nos sopros. Kiko toca ainda em Nó na Orelha, de Criolo. O som pesado e ao mesmo tempo ritmado de MetaL MetaL foi uma das portas para essa nova cena paulistana que misturava terreiro, samba, jazz e rock.

Como candidato a melhor álbum da década, o argumento do MetaL MetaL é o da coragem de som. O disco junta candomblé e guitarra elétrica sem transformar um dos lados em enfeite, e isso é raro. As músicas chegaram ao estúdio depois de rodar nos shows, e essa vivência de palco, descrita por Kiko, é o que dá ao disco a pressão que o torna diferente.

Quem chega ao disco hoje encontra uma ideia de Brasil mais ligada ao terreiro e à rua do que ao salão, tocada com distorção e sax.