Contexto e gravação
Dois na Bossa é o primeiro disco ao vivo de Elis Regina e a primeira vez que ela aparece num LP ao lado de Jair Rodrigues. Saiu em 1965 pela Philips, no auge de uma dupla que, naquele ano, dominava a televisão paulista. A data do disco merece um aviso: a página da Wikipédia sobre o álbum traz duas datas para a gravação: 8, 9 e 12 de abril de 1965, no Teatro Paramount, na ficha técnica, e 7, 8 e 12 de abril de 1964 na seção de créditos. A reportagem da Rolling Stone Brasil sustenta 1965, que é o ano usado aqui. O que se sabe com apoio de reportagem é que Jair Rodrigues se apresentou no Teatro Paramount, em São Paulo, em 8 de abril de 1965, num show produzido por Walter Silva e Manoel Barenbein.
O show do Paramount reunia Elis, Jair e o Jongo Trio. A Rolling Stone Brasil, em reportagem de 2014, conta que foi ali que Jair reencontrou Elis e que a ideia de ensaiar juntos um pot-pourri chamado “Dois na Bossa” nasceu daquele espetáculo. O pot-pourri juntava sambas de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Zé Kéti, entre outros. O sucesso do número levou a Philips a gravar o show ao vivo.
A fase de Elis ajuda a entender o disco. A Wikipédia em português conta que ela chegou ao Rio em 31 de março de 1964, dia do golpe militar, e passou pelo Beco das Garrafas, onde teve problemas com os produtores dos shows. Em agosto de 1964, começou a se apresentar em São Paulo, e foi lá que o produtor e radialista Walter Silva a levou para uma série de espetáculos. Em fevereiro de 1965, mudou-se com a família para a cidade. Ainda em 1965, cantou “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, e venceu o primeiro festival de música da TV Excelsior. Quando entra no palco do Paramount, portanto, Elis acaba de virar nome nacional.
Os dois se juntaram para apresentar o programa O Fino da Bossa, na TV Record, dirigido por Walter Silva e no ar até 1967, segundo a Wikipédia. A parceria rendeu três discos ao vivo com o mesmo título, Dois na Bossa, lançados em 1965, 1966 e 1967.
Quanto à ficha técnica, a Wikipédia indica produção de Walter Silva e Mário Duarte e duração de 31 minutos e 35 segundos. A Wikipédia nomeia apenas os intérpretes (Elis, Jair e o Jongo Trio), e as fontes consultadas não listam os instrumentistas um a um.
Faixas de destaque
Pot-pourri de abertura
A primeira faixa, com 6 minutos e 35 segundos, é o motivo do nome do disco. A ficha da Wikipédia lista onze títulos emendados, entre eles “O Morro Não Tem Vez”, “Feio Não É Bonito”, “Samba do Carioca”, “A Felicidade”, “Vou Andar por Aí”, “O Sol Nascerá (a Sorrir)”, “Acender as Velas” e “A Voz do Morro”. Os compositores vão de Tom Jobim e Carlos Lyra a Cartola e Zé Kéti. É um resumo do samba e da bossa nova politizada do começo dos anos 1960 em menos de sete minutos, e o recurso do pot-pourri dá ao disco um ritmo de show, sem pausas.
“Arrastão”
A canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes é a que deu a Elis a vitória no festival da TV Excelsior em 1965. No disco aparece com 2 minutos e 46 segundos, e leva ao palco do Paramount a canção que acabara de consagrar a cantora. Ouvi-la num registro ao vivo, e não no estúdio, ajuda a perceber a intensidade que Elis punha na interpretação.
“Reza”
Parceria de Ruy Guerra e Edu Lobo, tem quase 4 minutos e meio (4:29), a mais longa entre as faixas que não são o pot-pourri. Fica ao lado de “Arrastão” como segundo número de Edu Lobo no repertório, o que mostra o peso que os compositores dos festivais já tinham no show.
“Preciso Aprender a Ser Só”
Composição de Marcos e Paulo Sérgio Valle, com 4:06, mostra o lado bossa-novista do repertório. A dupla de irmãos Valle figura duas vezes no disco, também com “Terra de Ninguém”, o que mostra a importância dos compositores jovens da bossa na seleção do show.
“Menino das Laranjas”
De Theo de Barros, é a faixa de encerramento, com 2:13. A canção mostra que o repertório do show ia além dos nomes mais famosos do pot-pourri e incluía compositores menos lembrados hoje.
Samba e humor
O disco inclui ainda “Sem Deus com a Família”, de César Roldão, “Ué”, de Alcina Maria e Osmar Navarro, e “Tá Engrossando” e “Ziguezague”, de Édson Menezes e Alberto Paz. São números mais curtos, de pouco mais de dois minutos cada, que dão ritmo ao meio do disco entre as faixas mais longas.
Recepção da crítica
A Wikipédia em português não traz resenhas críticas do álbum, e as fontes consultadas não reproduzem comentários de jornais da época. O que está documentado é o resultado comercial. A página da Wikipédia diz que o disco passou de 500 mil cópias, marca inédita na música brasileira até então, e cita o livro Roberto Carlos em Detalhes (Planeta, 2006), do pesquisador Paulo Cesar de Araújo.
Esse número não é consenso. A página da Wikipédia sobre Elis Regina afirma que Dois na Bossa foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias. As duas cifras divergem, e nenhuma das fontes consultadas traz certificação ou relatório de vendas da época que decida a questão. Por isso o texto trabalha com a cifra mais cautelosa, de mais de 500 mil, e reconhece que o recorde pode ser maior.
Em fonte de jornalismo musical, o disco aparece sobretudo como ponto de partida de uma amizade. Em entrevista citada pela Rolling Stone Brasil em 2014, Jair Rodrigues descreveu a parceria com Elis como um mar de rosas e disse que os dois juntavam a fome com a vontade de comer. As frases resumem a química da dupla.
Legado
Dois na Bossa abriu uma trilha. Em 1966 saiu Dois na Bossa nº 2, que, segundo a Wikipédia, inclui “Upa Neguinho”, gravada ao vivo no programa da TV Record. Em 1967 veio o nº 3. Os três discos ficaram como registro de um momento em que a televisão aberta de São Paulo era o principal palco da música brasileira.
O disco também ajuda a explicar a passagem da bossa nova para o que viria a ser chamado de MPB. A Wikipédia sobre a bossa nova observa que o festival da TV Excelsior de 1965, vencido por “Arrastão” na voz de Elis, marcou o início do que se tornaria a sigla. Dois na Bossa registra essa transição ao vivo: o repertório mistura Jobim e Lyra, ainda bossa nova, com Edu Lobo e Ruy Guerra, já na linha dos festivais.
Para quem ouve hoje, o valor do álbum está na energia de palco. Não é um disco de estúdio lapidado, e sim o registro de duas vozes muito diferentes se divertindo juntas. Como candidato a melhor álbum dos anos 1960, Dois na Bossa defende uma ideia específica: a de que o disco ao vivo, com plateia e improviso, pode ser tão importante quanto o álbum conceitual.