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Disco da Década: página inicial
DISCO DA DÉCADA · 1970ACABOUCHORARENOVOS BAIANOS1972
Anos 1970

Acabou Chorare

Novos Baianos · 1972 · Som Livre

Faixas de destaque:

  • Preta Pretinha
  • Besta É Tu
  • Tinindo Trincando
  • A Menina Dança
  • Mistério do Planeta
  • Brasil Pandeiro
Votar nos anos 1970

Contexto e gravação

Os Novos Baianos se formaram em Salvador no fim dos anos 1960. O grupo reunia o poeta Luiz Galvão, o compositor e guitarrista Moraes Moreira, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor e o guitarrista Pepeu Gomes, muito marcado por Jimi Hendrix, segundo o site Sounds and Colours. O primeiro disco, É Ferro na Boneca (1970), recebeu elogios, mas vendeu pouco. Depois dele, o grupo saiu de São Paulo e foi morar no Rio de Janeiro, numa casa que funcionava como comunidade hippie.

O segundo álbum quase não saiu. De acordo com o Sounds and Colours, em 1972 o grupo gravava esse disco pela terceira vez quando recebeu uma visita inesperada. Era João Gilberto. Ele chegou à meia-noite, ficou até cerca de oito da manhã e voltou na noite seguinte para tocar mais. Os músicos achavam, no começo, que a visita era da polícia.

A Rolling Stone Brasil conta que Luiz Galvão reencontrou João no Rio e que o mestre da bossa nova passou a frequentar o grupo. Ele apresentou “Brasil Pandeiro”, samba de Assis Valente dos anos 1940, e pediu que a turma olhasse para dentro de si mesma. O efeito foi uma virada. O material, até então mais ligado ao rock, passou a olhar para o samba, o choro e a bossa.

A Wikipédia informa que o disco foi gravado no sítio onde o grupo morava, em Jacarepaguá, no Rio, o Cantinho do Vovô. O técnico de som Paulo César Salomão transformou um galinheiro em estúdio. Uma tentativa anterior de gravação, para a Polygram, foi abandonada. A produção é de Eustáquio Sena e João Araújo, e o selo é a Som Livre.

O elenco, pelos créditos da Wikipédia, inclui Moraes Moreira (voz, violão e arranjos), Pepeu Gomes (guitarra elétrica, craviola e arranjos), Baby (voz, afoxé, triângulo e maracas), Paulinho Boca de Cantor (voz e pandeiro), Dadi (baixo), Jorginho Gomes (cavaquinho, bateria e bongô), Baxinho (bumbo, bateria e bongô) e Bolacha (bongô). A capa é de Antônio Luis Martins, o Lula, e ganhou prêmio de melhor produção gráfica de 1972.

O título veio de uma história que João contou a Galvão. Sua filha pequena, Bebel, teria dito a frase depois de uma queda, enquanto a família corria para acudi-la, segundo a Rolling Stone Brasil. A ideia de um disco que expulsa a tristeza combinava com o momento. A Wikipédia lembra que o álbum nasceu com a intenção de responder, com alegria e humor, ao clima pesado da música popular durante a ditadura civil-militar.

Faixas de destaque

Preta Pretinha

É a faixa mais conhecida. Moraes Moreira fez a música sobre versos de Galvão. A gravação passa de seis minutos, bem mais longa que o padrão de rádio da época, e mesmo assim foi o maior sucesso do álbum. A Rolling Stone Brasil a aponta como o maior sucesso do disco. Há ainda uma reprise ao final do álbum, que fecha o ciclo com o mesmo tema.

Besta É Tu

Parceria de Galvão, Pepeu e Moraes. A faixa mostra o grupo no ponto em que o samba de pandeiro e a guitarra elétrica deixam de parecer coisas diferentes. A levada é dançante, e a guitarra faz solos curtos que respondem à voz. A Wikipédia a cita entre as músicas que ajudaram o disco a vender.

Tinindo Trincando

Outra canção de Galvão e Moraes, com pouco mais de três minutos. É das faixas mais ágeis do disco, com vozes coladas umas nas outras e energia de roda de rua. A Wikipédia a inclui entre os sucessos do álbum, e a Rolling Stone Brasil a destaca ao falar do reconhecimento que o disco ganhou com o tempo.

A Menina Dança

É a mais delicada do conjunto. O arranjo é enxuto, as vozes se alternam, e o balanço do samba fica discreto. Marisa Monte regravou a música em 1996, no disco Barulhinho Bom, o que ajudou a manter a canção viva para outro público.

Mistério do Planeta

Tem quase quatro minutos e meio e foi um dos sucessos do disco, de acordo com o Sounds and Colours. O andamento é mais contido que o das faixas vizinhas, e a canção mostra o lado menos festivo do grupo. A Rolling Stone Brasil também a coloca entre os destaques.

Brasil Pandeiro

É a única faixa que não foi escrita pelo grupo. A sugestão foi de João Gilberto, e a escolha mostra o que o disco queria dizer: o rock e o samba podiam tocar juntos sem que nenhum dos dois perdesse a graça.

Recepção da crítica

O sucesso popular veio antes do reconhecimento crítico. A Wikipédia informa que o disco vendeu cerca de 150 mil cópias, número alto para a época, e que ficou entre as primeiras posições das paradas por mais de trinta semanas. A Rolling Stone Brasil acrescenta que a faixa-título ficou mais de trinta semanas seguidas entre as mais tocadas do país no rádio. Segundo o Sounds and Colours, uma temporada do grupo numa casa noturna do Rio, a Number One, foi esticada para dois anos.

A crítica da época não deu grande atenção. O prestígio cresceu depois. A Wikipédia diz que o interesse acadêmico se firmou a partir dos anos 1990. O AllMusic deu ao álbum quatro estrelas e meia.

O momento de maior destaque veio em 2007. A Rolling Stone Brasil publicou uma edição especial com os 100 maiores discos da música brasileira, e Acabou Chorare ficou em primeiro lugar. A revista explica o método: sessenta críticos, estudiosos, produtores e jornalistas escolheram vinte discos cada um, sem ordem, e os votos foram somados, levando em conta valor artístico e importância histórica. Em 2012, uma enquete da Rádio Eldorado FM, do Estadão.com e do Caderno C2+Música o colocou em oitavo lugar, empatado com Secos & Molhados, segundo a Wikipédia.

Legado

O disco é citado como referência por cantoras e cantores da geração seguinte. A Wikipédia lista nomes como Marisa Monte, Vanessa da Mata, Céu, Roberta Sá e Mariana Aydar. A Rolling Stone Brasil liga o álbum à retomada do samba por cantoras brasileiras nos anos 2000.

O som do disco ensinou que a guitarra elétrica podia entrar no samba sem virar efeito. Esse equilíbrio é difícil, e poucos álbuns brasileiros o encontraram. A Wikipédia atribui o resultado à mistura de samba, rock, cavaquinho, percussão brasileira e guitarra elétrica. Chico Amaral, do Skank, é lembrado ali como admirador da guitarra do disco.

Como candidato à melhor obra dos anos 1970, Acabou Chorare tem um argumento próprio. Nasceu longe do estúdio de grife, num galinheiro adaptado, por um grupo que vivia junto. A Wikipédia diz que o álbum levou cerca de dois anos para ganhar forma, entre composição, ensaio e conversa com João Gilberto. O resultado soa solto, mas não foi improviso.

A obra ganhou edições novas ao longo do tempo. A Wikipédia registra o lançamento em CD em 1992, a reedição de 2004 com outros títulos da Som Livre, a versão de 2010 na coleção Grande Discoteca Brasileira e a reprensagem em vinil de 2011. A Rolling Stone Brasil republicou seu texto sobre o disco para marcar os cinquenta anos. A cada nova geração, o álbum volta à roda de conversa como prova de que alegria também pode ser coisa séria.