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DISCO DA DÉCADA · 1970CLUBE DAESQUINAMILTON NASCIMENTO E LÔ BORGES1972
Anos 1970

Clube da Esquina

Milton Nascimento e Lô Borges · 1972 · EMI-Odeon

Faixas de destaque:

  • Tudo Que Você Podia Ser
  • Cais
  • O Trem Azul
  • Clube da Esquina Nº 2
  • Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
  • Dos Cruces
Votar nos anos 1970

Contexto e gravação

Clube da Esquina é um disco de grupo. O nome vem da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte, onde a turma de Milton Nascimento, Lô Borges e amigos se reunia, segundo a Wikipédia. Com o tempo, o título passou a designar o próprio coletivo de músicos e compositores mineiros e de gente que se juntou a eles, mesmo quem não era de Minas.

O álbum saiu em março de 1972, pela EMI-Odeon, e foi o quinto de estúdio de Milton e o primeiro de Lô. A Paste informa que o trabalho foi feito durante a ditadura militar e que os dois já tinham composto juntos a canção “Clube da Esquina”, que apareceu em Milton, de 1970.

A gravação ocorreu em novembro de 1971. O grupo passou cerca de seis meses numa casa de praia em Piratininga, em Niterói, e fez as sessões finais nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro. A produção, pela ficha técnica citada na Wikipédia, é de Milton Miranda e Lindolfo Gaya. O processo era analógico: um canal para as vozes e outro para os instrumentos, de modo que qualquer erro obrigava a recomeçar a faixa.

A gravadora, no início, hesitou diante da ideia de um álbum duplo. Os trabalhos anteriores em parceria ajudaram a convencer a casa, de acordo com a versão em inglês da Wikipédia. O resultado tem dois discos, 21 faixas e cerca de 64 minutos.

O elenco é grande. Milton canta a maior parte das faixas. Lô Borges aparece como compositor e cantor. Beto Guedes tocou em 17 das 21 faixas, alternando baixo e bateria. Wagner Tiso toca órgão e piano. Também participam Toninho Horta, Robertinho Silva, Tavito, Nelson Angelo, Luiz Alves e Rubinho, e Alaíde Costa canta em “Me Deixa em Paz”. Os letristas principais são Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. As orquestrações ficaram sobretudo com Eumir Deodato e Wagner Tiso, com Paulo Moura como regente.

A capa foi fotografada por Cafi, de dentro de um carro, numa estrada perto de Nova Friburgo. Mostra dois meninos, Cacau e Tonho. A Wikipédia registra que, em 2012, os dois processaram Milton, Lô e a EMI por uso indevido da imagem, e que em setembro de 2023 o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decidiu a favor dos músicos, por entender que o prazo para a ação já tinha prescrito.

Faixas de destaque

Tudo Que Você Podia Ser

Abre o disco. É uma canção de Milton sobre o que a juventude podia ter sido, com melodia aberta e uma sensação de estrada que atravessa o álbum inteiro. A Wikipédia lembra que a estrada é metáfora recorrente no conjunto, assim como a amizade e a liberdade.

Cais

Curta, com menos de três minutos, e também de Milton. Vem logo depois da abertura e mantém o clima de estrada e despedida que marca o início do álbum. A Wikipédia a inclui entre as faixas notáveis do conjunto.

O Trem Azul

É de Lô Borges e tem pouco mais de quatro minutos. A melodia mostra o lado pop do coletivo, mais próximo da canção de rádio, e deixa claro por que Lô logo seguiu carreira solo. A Wikipédia o inclui entre as faixas notáveis.

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo

Outra de Lô, com cerca de quatro minutos, no lado dois do primeiro disco. O título já resume o tom: imagem simples, delicada, de quem escreve para alguém. A Wikipédia registra que o grupo cita os Beatles e Chopin entre suas referências, e que a imprensa comparou o álbum a Sgt. Pepper’s.

Clube da Esquina Nº 2

Canção de Milton que dá nome ao projeto e, mais tarde, ao segundo disco da série. Tem pouco mais de três minutos e meio. Por ter o mesmo nome do projeto, funciona como ponto de referência do disco. Aparece na lista de faixas notáveis da Wikipédia.

Dos Cruces

É a faixa mais estranha ao repertório mineiro. Trata-se de um bolero espanhol de 1952, de Carmelo Larrea, que Milton descobriu numa viagem à Venezuela, segundo a Wikipédia. A versão dura mais de cinco minutos e mostra o quanto o álbum estava aberto a influências latino-americanas. O texto da Wikipédia informa que sete faixas do disco têm castelhano.

Recepção da crítica

A estreia foi dura. A crítica brasileira da época foi, em geral, negativa. Parte dela chamou o disco de “pobre e descartável”, de acordo com a Wikipédia, e a mistura de gêneros confundiu os resumos de jornal. Houve vozes a favor: o crítico Fernando Spencer, do Diário de Pernambuco, escreveu em 1972 que se tratava de um “excelente álbum” que confirmava a força do compositor.

Fora do país, o disco foi bem. Foi sucesso comercial e caiu no gosto de estudantes. No Brasil, estreou em nono lugar no Ibope do Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1972, chegou ao oitavo e ficou cinco semanas nas paradas.

O reconhecimento veio depois. Na avaliação retrospectiva, o AllMusic deu cinco estrelas, e o Pitchfork deu 9,5 de 10. O crítico Andy Beta, do Pitchfork, o chamou de “um dos álbuns mais ambiciosos da história da música brasileira”. A Paste o classificou entre os 300 maiores álbuns de todos os tempos em 2024, em nono lugar, e seu texto o chama de “o maior álbum brasileiro”.

Nas listas nacionais, a Rolling Stone Brasil o colocou em sétimo lugar entre os 100 maiores discos da música brasileira, em 2007. A enquete da Rádio Eldorado FM de 2012 o pôs em segundo. Em 2022, o podcast Discoteca Básica o elegeu o maior disco brasileiro de todos os tempos, em lista de 500 títulos. Ele também consta no livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die, de 2010.

Legado

O principal legado é o próprio nome. “Clube da Esquina” virou uma escola, no sentido de um jeito de fazer canção: harmonia sofisticada, melodias que parecem simples, coros de vozes, cordas que surgem de repente, letras sobre amizade e estrada. Esse é o sentido que a Wikipédia dá ao nome: o título passou a designar o coletivo de Milton, Lô e colaboradores, inclusive os que não eram mineiros.

A continuação veio em 1978, com Clube da Esquina 2, disco de 23 faixas que reuniu Milton, Lô e participações de Elis Regina, Chico Buarque e Francis Hime, conforme a Wikipédia. O fato de o segundo volume atrair nomes tão grandes mostra o peso que o primeiro ganhou.

Como candidato ao melhor álbum dos anos 1970, o disco tem um argumento difícil de ignorar: a ambição. Um duplo de estreia coletiva, gravado em casa de praia, com orquestrações de Deodato e Tiso, falando espanhol e português, num tempo de censura, é uma aposta alta. Ela deu certo porque as canções sustentam a escala. Há faixas de trinta segundos, como “Estrelas”, e faixas de mais de cinco minutos, e nada soa descartável.

A última faixa, “Ao Que Vai Nascer”, também carrega uma história: a Wikipédia informa que ela foi alterada por causa da censura. Esse detalhe lembra que o disco foi feito sob vigilância. Hoje, quem o ouve encontra uma obra que pede paciência e devolve muito. A Paste a descreve como uma mistura de pop barroco, folk, psicodelia e MPB, e a lista dá a medida do que o disco propõe.