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DISCO DA DÉCADA · 1970SECOS &MOLHADOSSECOS & MOLHADOS1973
Anos 1970

Secos & Molhados

Secos & Molhados · 1973 · Continental

Faixas de destaque:

  • Sangue Latino
  • O Vira
  • Rosa de Hiroshima
  • Primavera nos Dentes
  • Rondó do Capitão
  • Fala
Votar nos anos 1970

Contexto e gravação

O Secos & Molhados nasceu da cabeça de João Ricardo, em 1971. Segundo a Outras Palavras, ele viu o nome numa placa de loja em Ubatuba e decidiu usá-lo para o grupo. A formação original tinha outro vocalista. Quando ele saiu, a cantora Luhli sugeriu Ney Matogrosso, que João e Gerson Conrad conheceram no Rio de Janeiro. Ney era um jovem ator que trabalhava com artesanato em couro, e a voz aguda dele virou a marca da banda. O primeiro show com essa formação foi em São Paulo, em dezembro de 1972.

No começo de 1973, o jornalista Moracy do Val virou empresário do grupo. Conseguiu contrato com a Continental depois de várias gravadoras recusarem a banda, conta a Outras Palavras. A Wikipédia em inglês lista Moracy como produtor do disco. Fontes de discografia divergem sobre esse crédito, e há quem acrescente o nome de João Ricardo. Neste texto, seguimos a versão mais comum.

O álbum foi gravado em cerca de quinze dias, entre 23 de maio e 8 de junho de 1973, no Estúdio Prova, em São Paulo, de acordo com o Correio Braziliense. A Wikipédia em inglês dá a data de lançamento como agosto de 1973.

O núcleo era um trio: Ney Matogrosso nos vocais, João Ricardo e Gerson Conrad nos vocais de apoio e nos violões de seis e doze cordas. Entre os músicos de estúdio e de turnê, o Correio Braziliense cita Willy Verdaguer no baixo, Emílio Carrera no piano, John Flavin na guitarra, Sérgio Rosadas na flauta e Marcelo Frias na bateria. Frias aparece como a quarta cabeça na capa, mas preferiu ficar como músico contratado. Zé Rodrix tocou acordeão em “O Vira” e sintetizador em “Fala”.

A capa virou imagem famosa. Foi fotografada por Antônio Carlos Rodrigues e mostra uma cabeça num prato de papelão prateado, cercada por pão, cebola, vinho, linguiça e azeite. A sessão levou uma noite inteira, em junho de 1973, segundo o Correio Braziliense, e Marcelo Frias se recusou a pintar o rosto.

Boa parte do repertório é de poemas já publicados, postos em música. Entre os autores estão Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e Solano Trindade. O biógrafo Miguel de Almeida, citado pelo Correio Braziliense e pela Outras Palavras, defende que usar poesia ajudou a passar pela censura, porque os censores deixaram escapar o conteúdo subversivo.

Faixas de destaque

Sangue Latino

Assinada por João Ricardo e Paulinho Mendonça, é uma das faixas de maior sucesso do álbum, de acordo com o Correio Braziliense. Abre o lado um e já apresenta o que a banda tinha de diferente: voz aguda e teatral, violões em primeiro plano e um refrão fácil de cantar. O tom é de protesto, sem deixar de ser canção de rádio.

O Vira

Parceria de João Ricardo e Luhli, com Zé Rodrix no acordeão. Também foi um dos grandes sucessos. O nome remete à dança portuguesa, e o acordeão dá um ar de festa popular que contrasta com o jeito andrógino e provocador do grupo no palco.

Rosa de Hiroshima

Gerson Conrad musicou o poema de Vinicius de Moraes. É uma das faixas mais lembradas do lado dois e mostra que o disco sabia ser delicado. O texto fala do horror da bomba atômica, e a escolha de um poema de Vinicius mostra de novo o método do disco: usar a literatura como escudo e como voz.

Primavera nos Dentes

Escrita por João Ricardo sobre versos de João Apolinário, é lembrada ao lado de “Amor”, também de Apolinário, na leitura do Correio Braziliense. A mistura de poesia e rock leve explica por que o grupo agradava a públicos tão diferentes.

Rondó do Capitão

João Ricardo musicou um poema de Manuel Bandeira. É um exemplo do método do disco: pegar um texto da literatura consagrada e fazê-lo caber numa canção pop, sem perder o ritmo do verso.

Fala

Fecha o álbum, com letra de Luhli e música de João Ricardo. Tem Zé Rodrix no sintetizador, segundo o Correio Braziliense, o que dá ao disco um fecho com timbre diferente do violão que domina o resto.

Recepção da crítica

O fenômeno foi, primeiro, de público. A Continental, que não esperava muito, prensou apenas cerca de 1.500 cópias, e elas esgotaram em poucos dias. Segundo o Correio Braziliense, as vendas chegaram a 250 mil em 60 dias, 350 mil em três meses e perto de 800 mil em sete meses. A estimativa é de cerca de um milhão de cópias em um ano. O disco recebeu certificações de ouro, platina e diamante. A reedição em CD de 1997 vendeu mais 250 mil exemplares, e a Wikipédia em inglês registra disco de platina em 1997 pela ABPD.

As canções tocavam em todas as rádios, e a turnê teve cerca de 369 shows em um ano, de acordo com o Correio Braziliense. Os agentes da ditadura prestaram pouca atenção às letras, mas o visual andrógino e a dança de Ney chamaram atenção. Gerson Conrad lembra de agentes vigiando sua casa, e Ney recebeu cartas anônimas com ameaça de morte.

Nas listas, a Rolling Stone Brasil colocou o disco em quinto lugar entre os 100 maiores da música brasileira, em 2007, segundo a Wikipédia em inglês. Na enquete de 2012 da Rádio Eldorado FM e do Estadão, ficou em oitavo, empatado com Acabou Chorare, conforme a Wikipédia em português. Não encontrei, nas fontes consultadas, citações de críticos da época que eu possa reproduzir com segurança. As fontes consultadas não informam o que a imprensa especializada escreveu em 1973.

Legado

O Secos & Molhados durou pouco. A Outras Palavras observa que a ascensão e a queda rápidas, com os integrantes juntos por pouco tempo, ajudaram a transformar o grupo em lenda. Moracy do Val também saiu da história mais tarde.

O que sobrou foi um jeito de cantar e de aparecer. Ney Matogrosso seguiu como um dos grandes intérpretes do país. A banda mostrou que um disco de poesia, com violão e voz, podia vender como grande sucesso popular. O visual andrógino e a dança de Ney, que chamaram a atenção dos agentes da ditadura, seguem como parte da memória do grupo. As fontes consultadas não detalham quem foi influenciado por isso.

Como candidato a melhor álbum dos anos 1970, o disco tem um argumento claro: junta o popular e o literário sem pedir licença. Ouvir “Rondó do Capitão” ao lado de “Sangue Latino” é perceber que a distância entre poesia de livro e canção de rádio, naquele momento, parecia pequena. O repertório é curto, pouco mais de meia hora, e não tem faixa para pular.

A imagem da cabeça no prato continua entre as capas mais reconhecíveis da música brasileira, e a Outras Palavras a descreve como icônica. Cinquenta anos depois, o Correio Braziliense usou a data redonda para recontar a história da banda que desafiou a ditadura, o que mostra que o disco ainda interessa a quem quer entender o período.