Contexto e gravação
Em 1999, os Los Hermanos eram uma banda carioca de rock com um hit de rádio na mão. O disco de estreia, de nome igual ao do grupo, passou das 350 mil cópias, segundo a Wikipedia em inglês. A gravadora, a Abril Music, queria repetir a dose. Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, os dois compositores e vocalistas, queriam outra coisa.
O resultado saiu em 23 de julho de 2001: Bloco do Eu Sozinho, segundo álbum do grupo, com 14 faixas e 49 minutos. A banda era formada por Camelo (voz, guitarra e violão), Amarante (voz, guitarra, banjo, flauta doce e tamborim), Rodrigo Barba na bateria e Bruno Medina nos teclados. Na gravação, o baixo ficou com Alexandre Kassin, que já era parceiro frequente do grupo. A Wikipedia em inglês conta que o baixista Patrick Laplan deixou a banda durante a produção, insatisfeito com o rumo do som.
A Wikipedia em inglês diz que a banda preferiu produzir o disco nas montanhas do estado do Rio, longe da cidade, para ter sossego. Já o AllMusic indica o Estúdio 304, no Rio, como local de gravação. As duas informações aparecem em fontes diferentes, e nenhuma delas explica a diferença, então o texto registra as duas.
A produção também tem ficha confusa. A infobox da Wikipedia cita Chico Neves, a seção de músicos cita Rafael Ramos, e a página do single “Sentimental” fala em Alexandre Kassin. Nenhuma das páginas explica a diferença, e as fontes consultadas não permitem apontar com segurança quem assina a produção.
O que as fontes concordam é no conflito com a gravadora. A Abril Music recusou a primeira versão, dizendo que faltava potencial de sucesso e que a produção soava amadora, e pediu uma remasterização. Marcelo Sussekind refez a mixagem, mas, segundo a Wikipedia em inglês, manteve o disco muito próximo do original, e foi essa versão que chegou às lojas.
O disco traz também uma lista longa de convidados. Entre eles estão Jaques Morelenbaum (violoncelo), Eduardo Morelenbaum (clarone, clarinete e arranjos), Bubu (trompete, flugelhorn e arranjos), Bidinho Spínola (trompete), Vittor Santos (trombone), Daniel Garcia (saxofone) e Eliézer Rodrigues (tuba). É um elenco de metais, madeiras e cordas bem distante do formato de quatro rapazes e uma guitarra distorcida.
Faixas de destaque
Todo Carnaval Tem Seu Fim
Abre o disco, com 4min23s, e Camelo assina sozinho. O título já dá o tom: uma festa que acaba, vista por quem está sozinho no meio dela. Como primeira faixa, apresenta o ouvinte ao cruzamento de rock e samba que o título do álbum anuncia, e deixa claro que o grupo não ia correr atrás de outro sucesso de rádio nos moldes do primeiro disco.
A Flor
Assinada por Amarante e Camelo, tem 3min27s. É uma das faixas que registram a parceria dos dois compositores no papel, o que a torna um bom retrato do grupo como dupla de autores. Vem logo depois da abertura e mantém o disco em movimento, em vez de deixá-lo se arrastar.
Sentimental
Composição de Amarante, com 5min09s, a mais longa do disco. Tem a participação vocal de Lenna Beauty, segundo a ficha técnica da Wikipédia. A faixa mostra que o grupo tinha dois autores com vozes diferentes: Amarante escreve de outro jeito que Camelo, e a alternância entre os dois dá ritmo ao álbum.
Cher Antoine
Também de Amarante, é uma das menores, com 2min29s. O título em francês e a duração enxuta fazem dela uma pausa curiosa no meio do álbum. Serve de exemplo de como o disco troca de clima sem aviso.
Mais Uma Canção
Camelo e Amarante assinam juntos. A ficha técnica registra Eliézer Rodrigues na tuba, o que dá ideia do peso que os metais ganharam no arranjo. Tem 4min11s e mostra a banda confortável com instrumentos pouco comuns no rock brasileiro da época.
Adeus Você
Fecha o álbum em 2min58s. A ficha lista dois violinistas (Michel e Bernardo Bessler), flauta, viola de arco e o violoncelo de Jaques Morelenbaum. Terminar um disco de rock com um quarteto de cordas e uma flauta diz muito sobre a ambição do projeto.
Recepção da crítica
As fontes consultadas trazem poucas resenhas da época do lançamento. A caixa de avaliações da Wikipedia em inglês lista duas: o Omelete (2001) deu 5 de 5 estrelas e o The Music Box (2010) deu 4 de 5. Ou seja, a crítica que se registrou foi favorável, mesmo com o disco vendendo abaixo do esperado.
O que se sabe com segurança vem de outros fatos. O disco vendeu menos do que a Abril Music esperava e menos do que o álbum de estreia. Foi indicado ao Grammy Latino de 2002 na categoria de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa, segundo registro da Folha de S.Paulo que a Wikipédia usa como fonte. O sucesso grande veio com o disco seguinte, Ventura, de 2003, que levou a banda a fazer turnês regulares.
Com o tempo, a avaliação mudou. Em outubro de 2007, a Rolling Stone Brasil publicou uma lista dos 100 maiores discos da música brasileira, votada por 60 pesquisadores, produtores e jornalistas, com 20 escolhas por votante. Bloco do Eu Sozinho ficou na 42ª posição. É o único dos cinco discos desta década aqui em disputa que aparece nessa lista, e isso pesa como sinal de reconhecimento do meio especializado.
Legado
O disco envelheceu de um jeito raro: ganhou força com o tempo. O disco que vendeu abaixo do esperado em 2001 ganhou lugar de referência na memória de quem acompanhou a banda. Em 2021, uma matéria do UOL, citada na Wikipedia em inglês, relacionou o álbum ao Carnaval solitário daquele ano, vinte anos depois do lançamento.
A trajetória da banda também virou assunto de cinema. O documentário Los Hermanos: Esse é Só o Começo do Fim da Nossa Vida, de 2015, aparece em listagens da Rolling Stone Brasil e de sites de cinema. Em 2026, para marcar os 25 anos do álbum, o baterista Rodrigo Barba anunciou apresentações do disco inteiro em Goiânia e São Paulo, segundo agendas de eventos e a imprensa local.
Há ainda o peso do que o disco abriu. Ele mostrou que uma banda de rock brasileira podia usar samba, banjo, tuba e quarteto de cordas sem virar piada nem folclore. O desenho de duas vozes autorais num mesmo grupo continua sendo a marca desse período.
Como candidato ao título da década, Bloco do Eu Sozinho tem um argumento próprio. Vendeu menos do que o disco de estreia. Foi o que mais cresceu depois, e o que os ouvintes mais associam a uma experiência pessoal: ouvir sozinho, em meio ao barulho, e reconhecer a própria festa que acabou.