Contexto e gravação
Tribalistas começou como conversa entre amigos. Em março de 2001, Arnaldo Antunes gravava o disco Paradeiro em Salvador, com produção de Carlinhos Brown. Marisa Monte foi convidada para cantar na faixa-título e acabou ficando uma semana na cidade. Nesses dias, os três começaram a compor juntos. Segundo a Wikipédia em português, as músicas surgiram nesse período, e a própria página tem números diferentes para a quantidade: 13 músicas na abertura do texto e cerca de 20 na seção de gravação, que acrescenta que três delas foram desenvolvidas com outros colaboradores. A página não explica a diferença, e este texto não escolhe um dos dois números.
Em abril de 2002, os três decidiram registrar o material. Monte levou uma fita demo com esboços e ideias antigas. As gravações aconteceram de 8 a 24 de abril de 2002, no estúdio pessoal de Marisa Monte, na Gávea, no Rio de Janeiro. Ou seja, o disco foi gravado em pouco mais de duas semanas. Depois vieram cinco meses de edição e mixagem, incluindo uma versão em som dolby 5.1.
A ficha técnica mostra um trabalho de equipe. A produção musical é de Marisa Monte, com coprodução de Alê Siqueira, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. A mixagem ficou com Alê Siqueira, Flávio de Souza e a própria Marisa. A engenharia de gravação é de Antoine Midani. Dadi Carvalho e Cézar Mendes tocaram vários instrumentos, e Margareth Menezes participou de “Passe em Casa”, com voz e violão. A capa é uma ilustração de Vik Muniz feita com calda de chocolate e açúcar.
O disco saiu em 4 de novembro de 2002 pela Phonomotor, selo independente de Marisa Monte, com distribuição da EMI. Nos Estados Unidos, o lançamento foi em 17 de dezembro de 2002, pela Blue Note. A Wikipédia lista lançamentos em mais de 40 países.
A divulgação foi pequena de propósito. Houve poucas entrevistas, nenhum show e nenhuma turnê. O vídeo do disco foi exibido pela TV Globo em 3 de novembro de 2002, e o DVD foi mostrado em salas de cinema do Rio e de São Paulo, em parceria com a UCI Cinemas. Segundo a Wikipédia, foi a primeira vez que uma gravadora usou esse formato no país. A Wikipedia em inglês resume: o disco fez sucesso mesmo sem o grupo cantar as músicas na TV ou dar entrevistas de rádio.
O nome do grupo, segundo o artigo, saiu depois de uma consulta ao dicionário. A sílaba “tri” lembra que são três pessoas.
Faixas de destaque
Já Sei Namorar
Foi o primeiro single, lançado em 28 de outubro de 2002, e chegou ao topo das rádios brasileiras. É uma canção curta, de 3min16s, que vai direto ao assunto, sem introdução longa. O trio levou a música ao Grammy Latino, em Miami, e ao palco da Arena de Verona, na Itália, segundo a Wikipédia. Na Itália, a FIMI certificou o single com ouro, por cerca de 25 mil cópias.
Velha Infância
O segundo single saiu em 26 de março de 2003. Segundo a Wikipédia, foi a música mais tocada no Brasil em 2003 e na década de 2000, de acordo com a Crowley e o ECAD. Entrou na trilha da novela Mulheres Apaixonadas. Tem 4min10s e é a faixa de maior alcance popular do disco, o que ajuda a explicar por que o álbum entrou na casa de tanta gente que não acompanhava os três artistas.
Passe em Casa
Com 3min54s, tem Margareth Menezes nos vocais e no violão. A presença dela liga o disco a Salvador, cidade onde o trio começou a compor.
Carnavália
Abre o álbum, com 4min16s. O título faz pensar em festa de rua e em palavra inventada, e como primeira faixa funciona como apresentação do trio. A Wikipédia classifica o disco como MPB, samba, pop, bossa nova e, principalmente, tropicália.
É Você
Dura 2min51s. Não foi lançada como single, mas entrou na novela Da Cor do Pecado, em 2004, o que ajudou a manter o disco em circulação por mais tempo.
Pecado É Lhe Deixar de Molho
Interpretada apenas por Marisa Monte, em 2min58s. Mostra que nem todas as canções são cantadas pelos três, o que alimentou a leitura do Estadão de que o disco é quase um trabalho solo dela.
Recepção da crítica
A recepção foi, em geral, muito favorável, ainda que com notas diferentes. Segundo a Wikipédia em português, o AllMusic deu 4,5 estrelas em 5, assinado por Philip Jandovský. A Folha de S.Paulo deu 4 em 4, em texto de Pedro Alexandre Sanches. A revista Down Beat deu 5 em 5. O jornalista Jon Lusk, da BBC, avaliou o disco de forma positiva e o considerou o melhor trabalho de Monte desde 1994. O Estadão viu no álbum quase um disco solo de Marisa Monte, o que expõe uma discussão real sobre o peso de cada integrante.
A recepção não foi unânime. A página registra um site, o ZeroZen, com avaliação muito negativa da versão em vídeo.
No campo dos prêmios, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) escolheu o disco como melhor álbum de 2002. No Grammy Latino de 2003, o álbum teve seis indicações, entre elas Álbum do Ano e Gravação do Ano, e venceu como melhor álbum pop contemporâneo em língua portuguesa. No Prêmio Multishow, ganhou como melhor CD e melhor DVD. Também levou o Prêmio TIM de Música de 2003, como melhor grupo de MPB. Em 2010, a Folha o colocou em 10º lugar entre os 50 discos que definiram a música brasileira da década de 2000.
Em 2023, a Rolling Stone Brasil o incluiu, com o título Tribalistas, na 21ª posição entre os 50 melhores álbuns de rock latino.
O resultado comercial acompanhou os elogios. O disco estreou em segundo lugar no Brasil, chegou ao primeiro em janeiro de 2003 e ficou 23 semanas seguidas no topo. Foi certificado como diamante pela Pro-Música Brasil. As estimativas de vendas diferem entre as fontes: a Wikipédia em português fala em mais de 2,1 milhões de cópias no Brasil, e a versão em inglês, em cerca de 2,3 milhões. Em Portugal, foi o álbum mais vendido de 2003. Na Itália, chegou ao segundo lugar nas paradas.
Legado
A história do disco não terminou em 2004. O trio voltou em 2017 com um segundo álbum, também chamado Tribalistas, lançado em 25 de agosto pela Universal Music, que chegou ao primeiro lugar no Brasil e em Portugal. Em 2013, os três ainda lançaram “Joga Arroz”, canção em apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
O primeiro disco teve vida longa fora do rádio. “Já Sei Namorar” apareceu em jogos da série FIFA. Em maio de 2018, saiu uma reedição em vinil, pela Universal, para a turnê de reencontro do grupo. E o songbook do disco teve 5 mil exemplares publicados pela Gryphus Editora em setembro de 2003.
Como candidato da década, o argumento de Tribalistas é difícil de ignorar: poucos álbuns brasileiros dos anos 2000 combinaram aprovação de críticos, prêmios e vendas tão altas, tudo com um mínimo de promoção. A pergunta que o disco deixa para o voto é outra. Um álbum feito em duas semanas e meia, por três artistas com carreiras próprias, vale mais pelo que registrou ou pelo que deixou de fora? Cada ouvinte vai responder de um jeito.