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Disco da Década: página inicial
DISCO DA DÉCADA · 2000CÊCAETANO VELOSO2006
Anos 2000

Cê

Caetano Veloso · 2006 · Mercury Records

Faixas de destaque:

  • Outro
  • Minhas Lágrimas
  • Waly Salomão
  • Odeio
Votar nos anos 2000

Contexto e gravação

Em 2006, Caetano Veloso tinha 64 anos e uma discografia que já enchia estantes. O disco anterior, A Foreign Sound (2004), era um álbum de canções americanas. Antes dele, Fina Estampa e outros trabalhos estavam ligados a uma fase solene, de arranjos orquestrais ligados a Jaques Morelenbaum, como descreve Pedro Alexandre Sanches na Elle Brasil. Cê corta com essa fase.

O disco saiu em 1º de setembro de 2006, pela Mercury Records (a Wikipedia lista a Nonesuch também, na infobox). A produção é de Pedro Sá e Moreno Veloso, filho de Caetano. A banda que gravou foi um trio: Pedro Sá na guitarra, Ricardo Dias Gomes no baixo e no piano Rhodes e Marcelo Callado na bateria. O trio ficaria conhecido como Banda Cê e acompanharia Caetano também em Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012).

O título é a forma falada de “você”. Caetano costuma escrever “você”, mas canta “cê”. Ele mesmo desenhou a capa, como já tinha feito em três trabalhos anteriores, e escolheu o roxo para o fundo porque a cor é citada várias vezes nas letras, segundo a Wikipedia.

A gravação foi rápida. Caetano escreveu a maior parte das músicas já pensando na banda e ensaiou com o grupo como uma unidade. Pedro Sá foi confirmado cedo e recebeu a missão de escolher os outros músicos. Depois de meses de ensaio, a gravação principal levou cerca de duas semanas, e a produção das bases estendeu o processo por mais seis semanas.

Perguntado sobre a concisão do disco, Caetano disse que queria as canções tocadas daquele jeito e creditou o resultado aos jovens músicos que contratou. A Wikipedia reproduz a fala dele de que o álbum “resultou de uma mutação”: primeiro quis fazer um disco de rock sem seu nome, depois um de samba (que seria Zii e Zie, de 2009), e acabou fazendo nenhum dos dois. Na Elle Brasil, Sanches cita uma frase de Caetano, de 2006, em que o disco o liberta “um pouco de mim mesmo”.

A Wikipedia em inglês não informa em qual estúdio ou cidade o disco foi gravado, e as outras fontes consultadas também não.

Faixas de destaque

Outro

Abre o álbum, com 3min. Marcelo Callado canta nela, além de tocar bateria, segundo os créditos. Ver o baterista no microfone logo na primeira faixa diz algo sobre a proposta: um grupo, não um artista com músicos de apoio.

Minhas Lágrimas

Com 5min09s, está entre as faixas mais longas. Fica logo depois da abertura e dá espaço para o trio respirar. É uma das músicas em que se percebe a ideia de concisão do disco funcionando em tempo maior.

Waly Salomão

O título é uma homenagem ao poeta baiano Waly Salomão, e a faixa dura 3min24s. Pedro Sá canta nela, o que reforça o caráter coletivo do projeto. Conhecer a referência ajuda: Caetano canta sobre um amigo e artista, e o disco deixa de ser só sobre desejo.

Não Me Arrependo

Tem 4min08s. A ficha técnica mostra Pedro Sá no baixo nessa faixa, além da guitarra. Essa troca de função mostra que o trio dividia o trabalho de forma flexível, sem posições rígidas.

Odeio

É a faixa mais longa do disco, com 5min58s. O título já avisa o assunto. Críticos que analisaram as letras do álbum, como Nate Chinen, do New York Times, notaram o lado “carnal” e também raivoso. A Rolling Stone Brasil, em 2013, lembrou que Cê foi marcado por um clima de rancor que depois foi superado.

Deusa Urbana

Com 3min46s, completa o grupo de faixas curtas que sustentam o álbum. As músicas curtas, entre três e cinco minutos, dão ao disco um andamento enxuto. Todas as 12 faixas têm assinatura de Caetano Veloso.

Recepção da crítica

A recepção foi boa, mas não unânime. No Metacritic, o disco tem 75 em 100, com base em 12 resenhas, o que indica críticas “geralmente favoráveis”. O AllMusic, em texto de Philip Jandovský, deu 3 estrelas em 5 e disse que, embora não fosse ruim, faltava a faísca criativa típica de Caetano. A Wikipedia em inglês registra a Folha de S.Paulo com 3 em 5.

Na imprensa americana, as opiniões se dividiram bastante. Sasha Frere-Jones, da New Yorker, descreveu o disco como o mais próximo do indie rock na obra de Caetano, com ritmos altos e marcantes, mais comuns em bandas de garagem dos Estados Unidos. Mallory O’Donnell, da Stylus Magazine, deu A-, chamou o álbum de um dos melhores recentes do artista e o comparou favoravelmente a A Foreign Sound. Mike Powell, da Village Voice, viu na simplicidade do disco um triunfo. A Entertainment Weekly deu B+. Do outro lado, Robert Christgau classificou o álbum como “dud”, e Ben Ratliff, do New York Times, escreveu que o disco ficava no “extremo mesquinho do espectro emocional”, com composições cruas e sem polimento.

Em prêmios, Cê venceu o Grammy Latino de melhor álbum de cantor e compositor, na edição de 2007. Nas paradas, chegou ao 5º lugar em Portugal e ao 60º na Itália, em 2006.

Legado

O disco abriu uma trilogia. Segundo a Elle Brasil, Cê, Zii e Zie e Abraçaço formam a fase “roqueira” de Caetano, uma “segunda juventude” montada em torno de uma banda de garagem de músicos jovens. O texto diz que o trio levou Caetano a criar “transrocks”, influenciados por nomes como Lou Reed, Black Sabbath, The Clash, Pixies e The Strokes.

A Rolling Stone Brasil mostra a continuidade: Abraçaço foi eleito o melhor lançamento nacional de 2012 pela revista, e o show de abril de 2013, em São Paulo, foi descrito como “jovem, dançante e bastante roqueiro”. O texto de 2013 também diz que a dor de Cê “cicatrizou” no disco seguinte da banda.

O argumento a favor de Cê como álbum da década é a mudança de rumo. Um artista consagrado trocou o conforto de orquestra e repertório estrangeiro por um grupo novo, letras sem verniz e uma gravação de poucas semanas. O argumento contra aparece nas resenhas mais frias: faltava a faísca de outros discos dele. Quem vota precisa decidir qual dos dois pesa mais.