Contexto e gravação
Quando fez Cru, Seu Jorge já era um nome conhecido para além do Brasil. Nascido na periferia do Rio, ele passou parte da juventude sem casa e, segundo o World Music Central, consertava pneus aos dez anos para ajudar a família. Trabalhou com música e teatro e ganhou fama internacional como o Mané Galinha de Cidade de Deus. Depois viria o papel em A Vida Marinha com Steve Zissou, em que cantou versões em português de canções de David Bowie, como lembra a PopMatters.
O disco é descrito como o segundo álbum de estúdio da carreira solo dele, segundo a Wikipédia em português. A Wikipedia em inglês o trata como o segundo lançado fora do Brasil, depois de Carolina, de 2001. A gravação foi em 2003, de acordo com a página em português. Sobre o lugar, as Wikipédias não dizem nada. O perfil de Seu Jorge no All About Jazz afirma que ele gravou o disco em Itaipava, na região serrana do Rio, com o produtor francês Jerome Pigeon. Nenhuma das fontes consultadas nomeia o estúdio.
A data de lançamento é um ponto de confusão, por isso o disco consta aqui como 2004, como na lista. Pela Wikipedia em inglês, a primeira edição saiu em 21 de setembro de 2004, na França, pelo selo parisiense Fla-Flu (Favela Chic) em parceria com a Naïve. Já a Wrasse Records, que lançou o álbum fora da França, o publicou em 6 de setembro de 2005, segundo as resenhas da PopMatters e do World Music Central. No Brasil, a Folha de S.Paulo noticiou o lançamento em 17 de março de 2005, pelo selo ST2, informação que a Wikipédia em português registra. A mesma página em inglês alerta que a categoria do artigo diz 2005. Como as fontes divergem entre 2004 (França) e 2005 (Brasil e Estados Unidos), o texto mantém 2004, o ano da primeira edição.
A produção é de Jerome Pigeon, que assina como Gringo da Parada. A mixagem é de Renaud Letang, a masterização de André Perillat e a engenharia de Alexandre Rabaço. Os músicos citados na ficha são o próprio Seu Jorge (violão, baixo, guitarra com pedal wah-wah e vocais), Robertinho Brant (violão e vocais), Pretinho da Serrinha (percussão e cavaquinho), Mathieu Chédid (violão), Marcelo Aube (baixo), Edmundo Carneiro (percussão) e Fabio Fonseca (sintetizador). Gringo da Parada também aparece tocando sintetizador.
O resultado dura 46min05s em 12 faixas, e as duas últimas são remixes de “Mania de Peitão” e “Tive Razão”.
Faixas de destaque
Tive Razão
Abre o disco, com 4min32s, e é de autoria de Seu Jorge. O World Music Central a chama de faixa de destaque e a descreve como uma canção de amor. Foi usada no videogame FIFA 07, da EA Sports, o que levou a música a um público que talvez nunca tivesse ouvido o álbum.
Mania de Peitão
Escrita por Seu Jorge e Bento Amorim, dura 2min37s. Segundo o World Music Central, a letra critica o silicone. A Wikipédia em português a inclui entre as faixas com comentário social. É uma das músicas curtas do disco, o que ajuda a manter o ritmo.
Eu Sou Favela
Composição de Noca da Portela e Sérgio Mosca, com 2min27s. O World Music Central diz que é a canção mais explicitamente política do álbum, e a PopMatters cita a faixa por seus temas de favela. Num álbum lançado primeiro na França, ela mantém o endereço de origem do cantor à vista.
Chatterton
É um cover de Serge Gainsbourg, com 3min52s. O World Music Central diz que Jorge rosna e grita nela. Mostra o gosto do cantor por repertório de fora do samba e a vontade de cantar em registros diferentes.
Don’t
Cover da dupla Leiber e Stoller, famosa na voz de Elvis Presley. Dura 3min07s. A mesma resenha a descreve com “ominous tenderness”, ou “ternura ameaçadora”, em tradução livre. É uma escolha curiosa: uma música do repertório americano, tratada com a mesma atmosfera sóbria do resto do disco.
São Gonça
Outra composição de Seu Jorge, com 4min22s. Faz par com “Tive Razão” entre as originais citadas pelos críticos.
Recepção da crítica
A recepção foi boa, com ressalvas. O AllMusic deu 4 estrelas em 5. Na PopMatters, em 6 de outubro de 2005, o disco recebeu 6 em 10: o resenhista elogiou a voz rouca de Jorge, que carrega emoção mesmo para quem não entende português, e o comparou a Tom Waits e a Tricky. Criticou, porém, os arranjos esparsos, que às vezes soam arrastados.
O World Music Central foi mais generoso. Em resenha de 27 de setembro de 2005, de Tom Orr, o disco aparece como “fresh and genuine” e um “impressive piece of work”. Orr diz que o samba domina, com violão e percussão em primeiro plano, e que o álbum “não é exatamente revolucionário”. Outra matéria do mesmo site, de 27 de junho de 2005, vê um universo parecido com o de Nick Drake, com poucos recursos eletrônicos e leves batidas de inspiração hip hop na percussão.
Nas paradas, o álbum chegou ao 3º lugar na Billboard World Albums, nos Estados Unidos, em 2005, e ao 87º lugar no ranking francês SNEP.
Legado
Cru é lembrado menos como obra de grande repercussão local do que como cartão de visita internacional. Saiu num momento em que Seu Jorge circulava pelo mundo, e ainda em 2005 vieram The Life Aquatic Studio Sessions, com suas versões de Bowie. O próprio World Music Central, em junho de 2005, citava uma turnê norte-americana marcada para setembro daquele ano.
Há também um legado de método. O produtor Jerome Pigeon voltou a trabalhar com Seu Jorge em 2025, no projeto Parioca, em parceria com Matthieu Chedid, o mesmo Chédid que toca violão em Cru, segundo a loja Spindizzy Records.
Entre os cinco candidatos da década, Cru é o mais enxuto. Tem menos convidados famosos, menos vendas informadas e menos ambição de manifesto. Também é o que mais depende da voz de uma única pessoa. O argumento a favor dele é de gosto: um disco de samba cantado com fala de gente, em que covers de Gainsbourg e de Elvis soam como parte de um mesmo repertório. O argumento contra, que a imprensa levantou, é que o arranjo ficou seco demais.