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DISCO DA DÉCADA · 1960OSMUTANTESOS MUTANTES1968
Anos 1960

Os Mutantes

Os Mutantes · 1968 · Polydor

Faixas de destaque:

  • Panis et Circenses
  • A Minha Menina
  • Bat Macumba
  • Ave Gengis Khan
Votar nos anos 1960

Contexto e gravação

Os Mutantes eram três jovens paulistanos: Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias. Antes do disco de estreia, já tinham aparecido na TV Record, no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, onde tocavam peças clássicas adaptadas ao rock e sucessos dos Beatles, segundo a Wikipédia. Também recusaram um convite para integrar a Jovem Guarda, porque o programa não comportava a quantidade de equipamento que levavam.

A virada veio em 1967. O maestro Rogério Duprat os apresentou a Gilberto Gil, e juntos gravaram “Domingo no Parque”, que ficou em segundo lugar no III Festival de Música Popular Brasileira. Em 1968, estiveram no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis e participaram de gravações de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Essa convivência explica o repertório de estreia, que traz “Panis et Circenses” e “Baby”, de Caetano e Gil.

O álbum saiu em junho de 1968 pela Polydor, com produção de Manoel Barenbein e arranjos de Rogério Duprat. A Wikipédia em português diz que a gravação foi no início de 1968. A versão em inglês fala em dezembro de 1967 a janeiro de 1968, nos estúdios da Philips. As duas informações não batem, e nenhuma das duas traz fonte direta. A reportagem do Jornal do Brasil também não dá datas exatas nem o nome do estúdio, só fala em “o estúdio”. Este texto registra a divergência e não escolhe um lado.

Quem operou o som também é ponto em aberto. A ficha da Wikipédia cita Stélio Carlini como engenheiro de som. Já o Jornal do Brasil, em reportagem de 2018 pelos 50 anos do disco, diz que Cláudio César Dias Baptista, irmão de Arnaldo e Sérgio, foi o engenheiro e que seus efeitos de distorção aparecem em “Bat Macumba”. A Wikipédia lista Carlini como técnico de som e não menciona Cláudio César nesse papel. As duas fontes não se anulam, já que o disco pode ter tido mais de um técnico, mas nenhuma delas explica a divisão de tarefas.

O Jornal do Brasil conta que a banda improvisou bastante assim que teve acesso aos equipamentos novos do estúdio, processando sons de bateria e guitarra, e que Arnaldo disse que essa liberdade passou para o disco. Entre os recursos listados na reportagem estão uma lata de inseticida usada no lugar do chimbal da bateria, estalar de dedos como percussão em “Tempo no Tempo” e a voz de César Baptista gravada ao contrário em “Ave Gengis Khan”.

Além do trio, a Wikipédia cita como convidados Dirceu de Medeiros, na bateria, e Jorge Ben, na voz e no violão em “A Minha Menina”.

Faixas de destaque

“Panis et Circenses”

Abre o disco, é de Gilberto Gil e Caetano Veloso e dura 3:38. O título é uma expressão latina que significa “pão e circo”. Rita Lee conta, na autobiografia citada pela Wikipédia, que a dupla escreveu a canção em quinze minutos. Colocada na abertura do LP, a faixa serve de cartão de visitas para uma banda que misturava música erudita, pop e experimentação.

“A Minha Menina”

Música de Jorge Ben, com 4:42, é a mais longa do álbum. Rita Lee conta, segundo a Wikipédia, que pediu a canção a Jorge Ben e que ele a esboçou rapidamente quando ela visitou seu apartamento. A Wikipédia a cita como o exemplo de samba dentro de um disco que também passa pelo candomblé e pelo baião.

“Bat Macumba”

Composição de Caetano e Gil, com 3:10. O Jornal do Brasil destaca a percussão de base candomblé e os efeitos de distorção atribuídos a Cláudio César. A canção também aparece no disco coletivo da Tropicália, o que permite comparar duas leituras da mesma obra.

“Le Premier Bonheur du Jour”

Versão de uma canção de Frank Gérald e Jean Renard, gravada originalmente por Françoise Hardy e cantada em francês. Segundo o Jornal do Brasil, Rita Lee já a cantara com seu grupo anterior, o Teenage Singers. A Wikipédia cita o uso de uma bomba de inseticida como instrumento nesta faixa.

“Ave Gengis Khan”

Fecha o disco, é assinada por Arnaldo, Rita e Sérgio e tem 3:48, a segunda mais longa. A voz de César Baptista aparece invertida, segundo o Jornal do Brasil, e a canção é composição da própria banda, ao contrário de boa parte do repertório.

“Maria Fulô”

Baião de Sivuca e Humberto Teixeira, gravado originalmente em 1951. Segundo a Wikipédia, Rita Lee sugeriu a canção para tornar o som do grupo mais brasileiro. O Jornal do Brasil diz que Duprat fez o arranjo.

Recepção da crítica

O disco é lembrado mais pelo que veio depois do que por resenhas da época. As fontes consultadas não citam nenhuma crítica brasileira publicada em 1968, e as duas Wikipédias só listam resenhas posteriores. O que existe são avaliações retrospectivas.

John Bush, do AllMusic, deu 4,5 estrelas de 5, chamou o disco de melhor da banda e escreveu que é mais experimental do que a maioria dos discos psicodélicos britânicos e americanos da época, segundo as Wikipédias em português e em inglês. A revista britânica Mojo o incluiu entre os 50 discos mais experimentais de todos os tempos, à frente de nomes como Pink Floyd e Frank Zappa. A versão em inglês indica a posição 12, na lista “50 Most Out-There Albums of All Time”, e a em português não dá a posição, só diz que ele ficou acima de Beatles, Pink Floyd e Zappa.

Na lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil, de outubro de 2007, aparece em nono lugar. A Wikipédia em português também registra que o disco ficou na 21ª posição entre os 250 essenciais do rock ibero-americano da revista Al Borde, em 2008, o brasileiro mais bem colocado.

Legado

O álbum é tratado como obra central da Tropicália e como uma das origens do rock brasileiro. A Wikipédia o descreve como de vanguarda por combinar rock psicodélico e elementos locais numa época em que o pop brasileiro ainda era dominado pelo iê-iê-iê. Em 2018, ao completar 50 anos, o Jornal do Brasil citou Arnaldo Baptista dizendo que a banda inventou o rock brasileiro.

A banda seguiu o caminho. A Wikipédia em português menciona os discos Mutantes (1969) e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado como continuações da discografia, e a reedição em vinil pela Polysom, que também lançou uma caixa com a obra do grupo, é citada pelo Jornal do Brasil. O disco também teve edições internacionais: a Wikipedia em inglês registra lançamentos pela Omplatten Records, em 1999, e pela Universal Records, em 2006.

Para quem ouve hoje, o que chama atenção é a falta de medo. Um disco de estreia com tuba, cornetas, francês, baião, samba e distorção, feito por três jovens com recursos de estúdio ainda modestos, continua soando atrevido. Como candidato a melhor álbum dos anos 1960, o disco defende o argumento do atrevimento: poucos trabalhos da década misturam tantas referências com tanta naturalidade.