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DISCO DA DÉCADA · 1960TROPICÁLIAOU PANISETCIRCENCISVÁRIOS ARTISTAS1968
Anos 1960

Tropicália ou Panis et Circencis

Vários artistas · 1968 · Philips

Faixas de destaque:

  • Miserere Nóbis
  • Panis et Circencis
  • Baby
  • Parque Industrial
Votar nos anos 1960

Contexto e gravação

Este não é o disco de um artista. É o disco de um grupo, e isso explica boa parte do seu peso. Em 1968, a Philips reuniu num mesmo LP Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e Os Mutantes, com arranjos e regência do maestro Rogério Duprat e letras também de Capinam e Torquato Neto. A Wikipédia o descreve como o manifesto do movimento tropicalista.

O movimento vinha de 1967. No III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, Gil ficou em segundo lugar com “Domingo no Parque”, ao lado dos Mutantes, e Caetano em quarto com “Alegria, Alegria”, segundo a Wikipédia sobre o Tropicalismo. Os dois foram vaiados por usar guitarras elétricas. Naquele mesmo ano, o artista plástico Hélio Oiticica criou a obra-ambiência Tropicália, de onde, segundo o mesmo artigo, vem o nome do movimento.

A gravação começou em maio de 1968, no Estúdio RGE, em São Paulo, com produção de Manoel Barenbein, e o álbum saiu em julho pela Philips, de acordo com a Wikipédia em português. A duração total é de pouco mais de 38 minutos. A versão em inglês da Wikipedia registra 38:29 e a em português, 38:38; a diferença é pequena. A Wikipedia em inglês também confirma a gravação em maio de 1968 no estúdio RGE, em São Paulo.

A Wikipédia em português afirma que o disco foi pensado em parte como resposta ao Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e cita um artigo do Correio Braziliense de julho de 2024. A capa reforça a relação: a Wikipedia em inglês diz que ela presta tributo ao disco dos Beatles. O projeto gráfico é de Rubens Gerchman, a partir de foto de Olivier Perroy. Segundo a tese de doutorado de Aïcha Barat, de 2018, citada pela Wikipédia, Gil aparece sentado no chão numa pose que lembra um retrato de Oswald de Andrade, Caetano segura um retrato de Nara Leão, e Tom Zé se veste de homem da mala.

A ficha de quem canta o quê, na Wikipédia, é longa. Gil canta “Miserere Nóbis” e “Geleia Geral”. Caetano canta “Coração Materno”, de Vicente Celestino. Os Mutantes assumem a faixa-título. Nara Leão canta “Lindoneia”. Tom Zé assina “Parque Industrial”. No lado B, Gal Costa e Caetano cantam “Baby”.

Faixas de destaque

“Miserere Nóbis”

Abre o disco, é de Gil e Capinam e é cantada por Gil. Com pouco mais de três minutos e meio (3:44), funciona como prólogo, e o título em latim já prepara o clima de mistura entre o sacro e o popular que o disco vai explorar.

“Panis et Circencis”

Composta por Caetano e Gil e cantada pelos Mutantes, a faixa-título dá nome ao disco, uma referência à expressão latina “pão e circo”. A mesma canção abre o primeiro LP dos Mutantes, lançado em junho de 1968, e Rita Lee conta em sua autobiografia, citada na Wikipédia sobre esse disco, que Gil e Caetano a escreveram em apenas quinze minutos.

“Parque Industrial”

Música de Tom Zé que fica no lado A, com 3:16. É cantada em conjunto por Gil, Caetano, Gal, os Mutantes e o próprio Tom Zé. A reunião de tantas vozes numa faixa só resume o espírito de coletivo do disco.

“Baby”

Composição de Caetano, cantada por Gal Costa e Caetano, com 3:31. A Wikipédia a chama de grande sucesso do disco. A Rolling Stone Brasil a colocou na 30ª posição entre as maiores músicas brasileiras, segundo a Wikipedia em inglês.

“Coração Materno”

Canção de Vicente Celestino, cantada por Caetano. A Wikipédia lembra que ela era considerada de mau gosto, o que torna a escolha um gesto: o tropicalismo reabilitava o repertório que a música de bom gosto da época desprezava.

“Bat Macumba”

De Caetano e Gil, tem 2:33 e reúne Caetano, Gal, Gil e os Mutantes. Uma versão da mesma canção está também no LP de estreia dos Mutantes. Os dois discos mostram duas leituras do mesmo material.

Recepção da crítica

Em 1968, o jornal O Estado de S. Paulo considerou o disco um dos melhores álbuns brasileiros do ano, segundo texto do próprio jornal de 2012 citado pela Wikipédia. O AllMusic dá a ele cinco estrelas. A Spin Alternative Record Guide deu nota 9 de 10, conforme a Wikipedia em inglês.

Nas listas, o disco ocupa lugar de destaque. Na seleção dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil, de outubro de 2007, aparece em segundo lugar, segundo a Wikipédia. Em setembro de 2012, uma votação popular promovida pela Rádio Eldorado FM, pelo Estadão.com e pelo Caderno C2+Música, do Estadão, o colocou como o nono melhor álbum brasileiro de todos os tempos.

Legado

O disco ficou como o retrato mais completo do Tropicalismo em seu auge. Poucos meses depois do lançamento, o grupo tinha um programa na TV Tupi, o Divino Maravilhoso, que, segundo a Wikipédia, foi cancelado sob pressão dos militares entre outubro e dezembro de 1968. Em dezembro, um show de Caetano e Gil com os Mutantes na boate Sucata, no Rio, serviu de justificativa para a repressão. Pouco depois veio o AI-5, e o movimento foi interrompido. Em 1969, Caetano e Gil foram presos e depois exilados em Londres, onde ficaram até 1971.

A força do disco também está em manter a ideia de que a canção brasileira podia incorporar tudo: o rock, a canção melodramática de Vicente Celestino, o concretismo, o hino religioso. A Wikipédia em português cita a colagem, os efeitos sonoros e a fusão de traços brasileiros com tendências estrangeiras como traços do álbum. Cada artista leva para o disco uma identidade própria, e o conjunto vira mais do que a soma das partes.

Como candidato a melhor álbum dos anos 1960, o Tropicália reúne o que a década teve de mais ousado: arranjos de vanguarda, canções populares, humor e um gesto político que custou caro a seus autores.